RAÍZES DE MEU ENVOLVIMENTO COM RECONSTRUÇÃO DE ORELHA

Inequivocamente meu interesse, empenho e preocupação com as questões inerentes aos complexos aspectos da cirurgia reconstrutora da orelha foram despertados em plenitude e profundidade desde o período do Curso de Pós-Graduação em Cirurgia Plástica. Atenta e constante observação aos pacientes da 38ª Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e em seguida na clínica do Prof. Ivo Pitanguy fui atraído a identificar o difícil campo da especialidade. Eu estava no primeiro ano, mas minha aguçada concentração me levou a observar alguns pacientes muito bem operados de reconstrução de orelha causados por mordida humana. Numa reunião do tradicional e educativo “Plano Cirúrgico” numa 6ª feira, coordenado pelo Prof. Pitanguy apresentei-lhe fotos pré e pós-operatórias de dose pacientes. Ele ficou deveras impressionado com a casuística que me convidou para continuar a pesquisa no arquivo de sua clinica onde encontrei outros oito pacientes. Assim, somaram vinte pacientes decorrentes de lesões originadas por mordida humana. O Prof. Pitanguy sempre ávido por promover publicações científicas me estimulou e orientou a elaborar um trabalho que foi publicado em 1971 (Pitanguy, Cansanção, Avelar). Além da publicação ele me orientou a apresentar em congressos e o fiz em 1971, no VII Congresso da SBCP, em Salvador (Avelar e col.) e em 1972 no XII Latino-Americano de Cirurgia Plástica e VIII Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, em São Paulo (Avelar e col.). Com efeito, aquele esporádico acontecimento representou meus primeiros passos ao lado do Prof. Pitanguy no cenário da cirurgia reconstrutora da orelha. Ele enfatizava que aqueles bons resultados ainda poderiam e deveriam ser aprimorados, desde que eu dedicasse ao tema.
Tais desafios estavam dentro de um amplo leque de setores da especialidade que ainda deveriam ser estudados, analisados, pesquisados, explorados, decifrados e aperfeiçoados na busca de melhores soluções cirúrgicas.
Durante aquele período de minha especialização eu ainda não tinha novas proposituras técnicas ou idéias inovadoras que pudessem ser pesquisadas com perspectivas de acenar para um promissor horizonte porque minha atenção e empenho estavam voltados em absorver conhecimentos emanados de meus professores e os transcritos na Literatura Médica. Não obstante, em freqüentes diálogos com o Prof. Ramil Sinder, chefe de clinica da 38ª Enfermaria, manifestei algumas vezes inquietude quanto ao grande número de etapas cirúrgicas para reconstruir uma orelha. Ele, conhecedor profundo da Literatura Médica, enfatizava que era modalidade cirúrgica muito complexa e por tal motivo era necessários vários tempos operatórios.
Após concluir minha especialização, estimulado e orientado pelo Prof. Pitanguy, realizei uma longa viagem de estudos percorrendo diversos países (Estados Unidos, França, Inglaterra, Escócia, Alemanha) com objetivo de visitar os renomados cirurgiões plásticos: Millard, Converse, Tessier, Mustardé, além de outros destacados expoentes da época. Durante meu estágio com os amigos do Prof. Pitanguy, graças à efusiva carta de apresentação, tive oportunidade de assistir cirurgias de orelha que me fascinaram. Em minha mente já estava embutido visão crítica das técnicas por eles empregadas. Acredito que em decorrência de minhas perguntas a eles, os ilustres professores me sugeriram a dedicar ao campo da cirurgia reconstrutora de orelha. As manifestações dos Profs. Millard, Converse, Tessier e Mustardé foram uma grande alerta para a motivação ao estudo na modalidade cirúrgica.
Além de ser fellow dos destacados cirurgiões visitei outros serviços aparelhados à pesquisa científica, à formação de novos especialistas bem como participei de congressos internacionais em Madrid, Glasgow, Paris, Jerusalém, Nova York e Miami. Durante aquela viagem reforçou em minha mente que aquele leque de desafios por mim identificados na fase de estudos realmente era horizonte aberto à espera de novas perspectivas. Meus estudos nos tratados de Cirurgia Plástica daquela época e pesquisa científica eram exigência constante para participação, elaboração e publicação de novos artigos.
Com efeito, ao longo de minha viagem realizada durante nove meses a vários países percebi inusitada oportunidade de somar aos meus conhecimentos, outros que enriqueceram minha formação antes de iniciar as atividades profissionais. Assim, ficou evidente que havia questões que mitigavam soluções e lacunas a serem preenchidas.
Ao me instalar na cidade de São Paulo, em janeiro de 1974, já havia diagnosticado múltiplos campos da Cirurgia Plástica onde eu poderia intensificar estudos e pesquisas científicas. Assim, no início de meu trabalho desenvolvi incisivos estudos de anatomia e técnicas cirúrgicas pertinentes ao setor de reconstrução auricular, por mim apontado como carecendo de novas soluções. Era um constante desafio reparar freqüentes e complexos problemas que ocorrem durante e após intervenções cirúrgicas seguindo os princípios técnicos descritos na Literatura Médica.
Debaixo de obstinada perseguição nos canais científicos, aliada aos momentos de reflexão e meditação imaginei possibilidades operatórias que poderiam oferecer novos rumos nas reconstruções de orelha. Assim sendo, minhas pesquisas apontaram novas metas que seriam outras soluções aos difíceis problemas até então. Concluí que as temidas complicações pós-operatórias decorriam de deficiência vascular dos tecidos preparados para criar a nova orelha. Após realizar algumas intervenções reconstrutivas seguindo as descrições técnicas tradicionais deparei com severas complicações pós-operatórias que reforçaram minhas observações inerentes a pouca circulação sanguínea nos tecidos locais. Constatei que aquela deficiência vascular poderia ser sanada mediante transferência da artéria temporal superficial para reforçar o fluxo vascular aos tecidos da orelha.
Consultei os tratados de anatomia com o fito de confrontar minhas idéias com as descrições na Literatura e encontrei coerência entre ambas. Portanto, passível de realização.
Para comprovar meus estudos realizei dissecções anatômicas e criei retalhos da fascia temporal (ou gálea) para descrever arco de rotação de 180º, de cima para baixo, objetivando recobrir o novo arcabouço cartilaginoso esculpido durante reconstrução auricular. Com efeito, meu foco de pesquisa foi alcançado advindo das investigações laboratoriais em dissecções anatômicas, consequentemente alcancei novas informações técnicas.
Em fase sucessiva apliquei os novos conhecimentos em casos clínicos, que reafirmaram os achados das pesquisas anatômicas. Meu propósito era minimizar o sofrimento dos pacientes oferecendo-lhes imenso benefício, reduzindo as temidas complicações pós-operatórias. Por outro lado, reduzi as numerosas etapas reconstrutivas em uma única cirurgia.
Meus conhecimentos extraídos de intensos e prolongados estudos foram publicados nos canais científicos para conhecimentos de meus pares (Avelar, 1977, 1978, 1979). Além de múltiplas publicações, apresentei em congressos nacionais (Avelar, 1977) e internacionais em Tokyo (1977) Madri (1992), Turkey (2002) e em outros países.
Em consequência de adequadas soluções aos complexos problemas dos pacientes amplas e diversificadas deformidades auriculares chegavam às minhas mãos que exigiam e ainda exigem incessante dedicação às nuances peculiares de cada caso. Em 1989 publiquei o livro CIRURGIA PLÁSTICA NA INFÂNCIA (Editora Hipócrates, São Paulo), no qual escrevi sete capítulos abordando a cirurgia reconstrutora de orelha.
Em 1997 publiquei um livro, versando sobre criação da orelha (CREATION OF THE AURICLE), (Avelar, 1997) no qual transcrevi relatos de mais de trezentos pacientes operados para divulgar meus conhecimentos acumulados ao longo de minha jornada de vida. O livro foi publicado em inglês para facilitar a divulgação da obra em outros países. Nele transcrevi que para realizar cirurgia reconstrutiva de orelha o cirurgião deve ter, além de todas as qualificações exigidas para ser especialista, é necessário que tenha outra que denominei de VIRTUDE DIVINA. Esta é indispensável para vencer as inúmeras barreiras inerentes aos atos operatórios, aos cuidados pós-operatórios e com humildade interpretar os resultados reconstrutivos e perseguir na incessante busca de melhores resultados.
Em 2013 a Editora Springer com sede na Alemanha me convidou para escrever um livro sobre o tema. Assim foi publicado outro livro EAR RECONSTRUCTION (Avelar, 2013) com venda aos cirurgiões plásticos de todo mundo. A aceitação e aquisição de meu livro foram tão elevadas que a Editora Springer me solicitou escrever outra edição: EAR RECONSTRUCTION (2nd Edition) (Avelar, 2017) com igual repercussão entre os cirurgiões plásticos de todos os países. Em ambos os livros publicados pela Springer transcrevi conhecimentos acumulados ao longo de minha trajetória profissional, como produto de estudos, pesquisas e observação clinica após as etapas reconstrutivas realizadas em mais de dois mil casos operados e cuidadosamente acompanhados por mim durante todo o período de recuperação pós-operatória.
Durante cada cirurgia levo comigo um painel com frases oriundas de meu intenso e atento envolvimento no ato operatório, tais como:
1 – Realizo cada cirurgia com atenção e meticulosidade como se fosse a primeira em minha vida e a vivencio como se fosse a última.
2 – Em cada cirurgia absorvo novos conhecimentos de anatomia e recursos técnicos para aplicar nas próximas intervenções que representa constante aprendizado.
3 – O cirurgião absorve novos conhecimentos se mantiver aguçada atenção e humildade diante dos obstáculos.
4 – O conhecimento é passível de ser transmitido. Repousa aqui a meritória tarefa em transmiti-lo. Já a experiência é pessoal e intransferível.
5 – Velocidade em cirurgia significa não perder tempo com atos inúteis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Pitanguy I, Cansanção A, Avelar JM. Reconstrução de orelha nas lesões por mordida humana. Rev Bras Cir, 1971;61(9/10):158-164
2. Avelar JM (1971) Reconstrução de orelha nas lesões por mordida humana. Apresentado no VII Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, realizada em Salvador (BA) Fevereiro
3. Avelar JM (1972) Reconstrução de orelha nas lesões por mordida humana. Apresentado no VII Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, e XII Congresso Latino-American de Cirurgia Plastica, realizados em janeiro, em São Paulo.
4. Avelar JM. Reconstrução total do pavilhão auricular num único tempo cirúrgico. Rev bras Cir 1977; 67: 139-149.
5. Avelar JM. (1992) Uso do retalho de fáscia na reconstrução de orelha. In: Hinderer UT (ed.) Excepta Medica. X Congress of the Int. Conf. for Plast. and Reconst. Surg. Madrid, Spain. 1992; p. 265-268
6. Avelar JM (2002) Ear: Aesthetic Refinementes (Orelha: Refinamentos Estéticos) Curso Ministrado no XVI Congresso ISAPS (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, Istanbul – Turkey – Maio
7. Avelar JM. Reconstrução total da orelha numa única cirurgia. Variação técnica. Fméd (BR) 1978; 76:457-467.
8. Avelar JM. Microtia – Técnica simplificada para reconstrução total da aurícula, em um único estágio. Abstract VII Congresso Internacional de Cirurgia Plástica. Cortograf, Rio de Janeiro, 1979: 150
9. Avelar JM. (1977) Reconstrução total do pavilhão auricular num único tempo cirúrgico. Rev Bras Cir ; 67: 139-149.
10. Avelar JM. (1977) Reconstrução total do pavilhão auricular num único tempo cirúrgico. Apresentado no II Congresso Asiático de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva – Agosto, Tóquio (Japão)
11. Avelar JM. Creation of the Auricle — Ed. by Avelar, Editora Hipócrates, São Paulo, 1997.
12. Avelar JM (2013) Ear Reconstruction. In: JMA (ed) Springer.
13. Avelar JM (2017) Ear Reconstruction 2nd . In: JMA (ed) Springer.