RELEMBRANDO: Patologia em mamoplastia

Resumo

Os autores analisam sua experiência em torno de 2.046 pacientes consecutivos submetidos à mamoplastia redutora com exame histopatológico. Salientam o fato de que todas as pacientes se encontravam assintomáticas, foram operadas pelo mesmo cirurgião e examinadas pelo mesmo patologista. Analisam as diferentes lesões encontradas, sua incidência, tecendo comentários sobre a técnica cirúrgica empregada. A glândula mamária tem sido objetivo de vários trabalhos e publicações que procuram estuda-la sob todos os aspectos, desenvolvendo métodos e tecnologias que permitem aos diferentes especialistas um diagnóstico cada vez mais precoce das lesões mamárias. O aspecto do tecido mamário normal irá se modificar dependendo das variações hormonais ocorridas durante o ciso menstrual, a gravidez e a menopausa, fatores que devem ser levados em consideração na análise na análise do exame histopatológico. A importância da análise do material proveniente de uma mamoplastia convencional em pacientes normais e assintomáticas já é por todos conhecida e foi motivo de diversas publicações. Pitanguy e torres em publicações anteriores já deram sua contribuição ao tema. Nosso trabalho corresponde a uma revisão e discussão a respeito de 2.046 pacientes consecutivas, assintomáticas, que se submeteram à mamoplastia com exame histopatológico.

Pacientes e métodos

 

Realizamos um estudo retrospectivo de 1957 até 1985 em pacientes submetidas à mamoplastia redutora na Clínica Ivo Pitanguy. O exame histopatológico foi realizado em 2.046 pacientes.

Salientamos o fato de que todas as pacientes com mais de 35 anos.

Todas as mamas foram operadas pelo autor sênior, pela técnica Pitanguy ou sua variante, sendo examinadas pelo mesmo patologista.

O método empregado corresponde a cortes de parafina com coloração de hematoxilina e eosina (Fig.1).

Discussão

Na análise das peças cirúrgicas foi encontrada uma alta incidência de patologia mamária em pacientes assintomáticas.

Chamamos a atenção que em 2.046 pacientes examinadas, somente em 91 foi encontrado um parênquima mamário sem alterações, o que corresponde a 4,5%.

Considerando esse resultado e o fato de que todas essas pacientes eram hígidas e assintomáticas nos questionamos quanto ao conceito de mama normal, sob o aspecto histopatológico.

A análise da faixa etária nos revelou que a maioria das lesões histopatológicas foi encontrada no período de 30 a 40 anos (Tabela 1).

Notamos que a maior incidência de patologia mamária corresponde a lesões benignas: fibroadiposidade e displasia mamária em 81% dos casos (Tabela 2).

A fibroadiposidade foi encontrada em 49% dos casos, geralmente em mamas volumosas que podem atingir mais de 1 Kg por peça cirúrgica.

Histologicamente quase não se encontram elementos glandulares, apresentando poucos ductos, tecido gorduroso com hiperplasia acentuada e traves fibrosas de espessura variada.

Observamos a displasia em 32% dos pacientes. Consideramos nesse trabalho a displasia como toda e qualquer alteração das células que compõem os diferentes tecidos da mama, englobando várias entidades separadas anteriormente em fibrose, adenose, esclerose, moléstia cística (Schimmelbush) etc. (Fig. 2)

A relação entre displasia e câncer de mama sofreu alterações nos últimos anos. Acreditamos que, em princípio, não deveria haver uma chance de mama displásica malignar-se.

A mudança desse conceito reduziu bastante as indicações das mastectomias subcutâneas, que são utilizadas em casos selecionados entre os quais mastodinia persistente e intratável, e cancerofobia em raros casos.

As tumorações encontradas foram dividas em dois grupos: benignas e malignas. Empregamos a classificação de Broders, que considera como outros autores, papiloma de baixa malignidade como carcinoma papilífero grau 1.

Em relação aos tumores benignos, o mais frequente foi o fibroadenoma (Tabela 3), sendo descritos dois tipos, intra e pericanalicular (Figs. 3 e 4). O Cistosarcoma Phyllodes, histologicamente benigno, foi encontrado em apenas dois casos. Apresenta estroma com celuridade intra e pericanalicular, podendo em alguns casos malignizar-se (Fig. 5).

Notamos que entre os tumores malignos o carcinoma papilífero (Tabelas 4 e 5) foi o mais encontrado, correspondendo a 0,70% dos casos (Figs 6 e 7).

 

Tabela 1 – Anatomia patológica
Faixa etária (anos) Nº de casos
16 – 20 140
21 – 30 316
31 – 40 1.142
41- 50 421
51 – 60 18
Acima de 60 9
Total 2.046

 

Tabela 2 – Lesões benignas
Tipo Nº de casos
Fibroadiposidade 1.011
Displasia mamária 645
Atrofia mamária 196
Esteatonecrose 6
Siliconose 5
Total 1.863
Normais 91

 

Tabela 3 – Tumores benignos
Tipo Nº de casos
Cisto solitário 13
Fibroadenoma 47
Lipoma 5
Cistosarcoma Phyllodes 2
Total 67

 

Tabela 4 – Tumores malignos
Faixa etária (anos) Nº de casos
21 – 30 2
31 – 40 8
41 – 50 9
51 – 60 1
Acima de 60 1
Total 21

 

Tabela 5 – Tumores malignos
Tipos Nº de casos
Adenocarcinoma 5
Carcinoma papilífero 14
Fibrossarcoma 1
Moléstia de Paget 1

 

Em todos os casos que observamos o achado casual de malignidade detectado no exame histopatológico as pacientes foram encaminhadas ao especialista.

Conclusão

A mamoplastia pela técnica de Pitanguy e suas variantes permite uma abordagem ampla do Parênquima mamário.

O grau de ressecção do tecido mamário pode variar conforme cada caso podendo ser do tipo romboide (Fig. 8), ou semelhante a uma quilha de navio na sua forma clássica (Figs. 9 e 10).

Após a retirada de tecido mamário, que geralmente significa 40% da mama (Fig. 9), o cirurgião pode proceder à palpação cuidadosa de outros segmentos, especialmente do quadrante superior externo. Qualquer pequena tumoração poderia então ser detectada.

No estudo retrospectivo dos exames histopatológicos realizados em material cirúrgico de mamoplastia redutora, verificamos uma alta incidência de diversas patologias, principalmente benignas, sendo reduzido o número de pacientes que apresentam parênquima mamário sem alterações.

A análise dessas estatísticas, considerando o fato de que todas as pacientes se encontraram sem sintomatologia prévia ou alteração tumoral, chamou-nos a atenção quanto ao conceito de mama normal.

Fig.1 – Aspecto macroscópico do método de corte empregado para o exame das peças cirúrgicas.

Fig.2 – Aspecto macroscópico de uma peça apresentando displasia mamária com numerosos cistos. Fig. 2B – H.E. x 60 displasia fibrocística da mama.

Fig.3 – Peça apresentando fibroadenoma.

Fig.4 – H.E. x 60 Fibroadenoma. Notar que o estroma é menos celular.

Fig.5 – Macroscopia de um caso de Citosarcoma Phyllodes.

Fig.6 – H.E. x 460 – Carcinoma papilífero. Notar formação de franjas e papilas constituídas de células epiteliais anaplásicas.

Fig.7 – Adenocarcinoma; aspecto macroscópico.

Fig.8 – Figura ilustrando o tipo de resseção romboide.

Fig.9  Desenho demonstrativo do tipo de ressecção como descrito em sua forma clássica, semelhante a uma quilha de navio.

Fig.10 – Esquema tridimensional representando o tipo de ressecção em quilha.

Fig.11 – Desenho segundo Haagensen, C.D., demarcando as áreas de incidênciada patologia maligna, superposto pela marcação segundo a técnica de Pitanguy, que geralmente representam uma exérese de 40% de tecido mamário.

 

 

 

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