Importância da 38ª Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro para a Cirurgia Plástica Brasileira

Abstract

A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro foi o berço de grandes médicos. Teve destaque especial na cirurgia com enfermarias que alcançaram reconhecimento mundial. A 38ª Enfermaria, sob a tutela do Prof. Ivo Pitanguy, foi um dos centros pioneiros da cirurgia plástica como especialidade no Brasil e tornou-se referência mundial. Neste artigo é apresentado um breve relato da história da cirurgia na Santa Casa do Rio de Janeiro, enfatizando a importância que a 38a. Enfermaria alcançou e o estado atual de suas atividades.

INTRODUÇÃO

 

A cirurgia na Santa Casa do Rio de Janeiro (SCM-RJ) sempre esteve em destaque em meio a centros de referência internacional. Até a década de 1950 não havia uma instituição de formação especializada em cirurgia plástica no Brasil. Em 1960, foi criado, na 38ª Enfermaria da Santa Casa, um centro pioneiro de formação na especialidade, que consolidou-se como um dos mais importantes do Brasil.

Segue-se um breve relato da evolução da cirurgia plástica e da formação e consolidação da 38ª Enfermaria.

 

CIRURGIA E ENSINO NA SANTA CASA DO RIO DE JANEIRO

Fundada em 1582 pelo Padre José de Anchieta, a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro é o berço de grandes mestres da medicina brasileira. A primeira aula de medicina na Santa Casa aconteceu em 1775, desde então mostrando a vocação desta instituição para o ensino.

Fachada principal da Santa Casa / RJ

 

Na cirurgia geral destacaram-se, no final do século XIX e início do século XX, Daniel d’Almeida, Álvaro Ramos e Augusto Paulino. Entre as décadas de 1920 e 1940 o Dr. Augusto Brandão Filho conseguiu projetar a Enfermaria 23 ao patamar de excelência dos maiores serviços de cirurgia do mundo. A 23a era visitada por cirurgiões de vários países, e o Dr. Brandão Filho foi considerado um dos maiores operadores do mundo. Também a anestesia brasileira iniciou-se nesta enfermaria e de lá foi difundida por todo o país pelo Dr. Mario d’Almeida. Fernando Paulino na cirurgia geral, e Paulo Niemeyer na neurocirurgia, são exemplos dos brilhantes cirurgiões que deram seus primeiros passos nos anfiteatros da Santa Casa.

 

BREVE EVOLUÇÃO DA CIRURGIA PLÁSTICA

Esta especialidade iniciou-se na Índia, 4.000 anos antes de Cristo, com cirurgias para reconstrução nasal descritas por Sushruta, com a finalidade de reparar a mutilação daquele apêndice facial nas mulheres adúlteras e nos criminosos. Este início conferiu aos pacientes da especialidade tratamento discriminado por tratarem-se parcelas marginalizadas da população.

Vários médicos como Galeno, Pare, Tagliacozzi, Dieffenbach, entre outros, realizaram, em meio a vasta produção cirúrgica, intervenções reparadoras.

No inicio do século XX, atuou aquele que provavelmente deve ter sido o primeiro cirurgião plástico estético: Dr. Charles Conrad Miller. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a cirurgia plástica retornou a cena, então, para estabelecer-se definitivamente. Valorizada em seu aspecto reparador, foi divulgada principalmente por Sir Harold Gillies, na Inglaterra, considerado, por suas colaborações ao aperfeiçoamento técnico e embasamento científico, o pai da cirurgia plástica moderna.

Na década de 1950, época em que a cirurgia era dominada pelos cirurgiões gerais, a cirurgia plástica no Brasil ainda era vista com discriminação pela classe médica e pela população leiga, relegada como de pouca relevância. A cirurgia reparadora era praticada, na sua maioria, por cirurgiões gerais, e não havia uma formação especializada em cirurgia plástica no país. A cirurgia estética ainda não tinha sólidos alicerces técnico-científicos, e os pacientes que se submetiam a estas intervenções muitas vezes faziam-no secretamente.

 

A FORMAÇÃO DA 38ª ENFERMARIA E SUA CONSOLIDAÇÃO

Após anos de formação na década de 1940, nos Estados Unidos, com Longacre e, na Europa, com Sir Harold Gillies, Sir Archibald Mclndoe e Kilner, o jovem médico mineiro Ivo Pitanguy retornou ao Rio de Janeiro e dedicou-se integralmente ao aperfeiçoamento da então incipiente especialidade.

Criou, em 1949, a primeira clínica de cirurgia de mão da América do Sul, na 19ª Enfermaria da Santa Casa, serviço de Ortopedia do Dr. Henrique de Góes. Tratava também pacientes queimados em hospitais públicos do Rio de Janeiro. Após alguns anos como cirurgião de mão, o Dr. Pitanguy passou a chefiar, em 1954, o Serviço de Cirurgia Plástica e Reparadora da Santa Casa, ainda agregado à Enfermaria 19.

Cinco anos depois, devido ao elevado número de pacientes, a direção da Santa Casa cedeu a 8ª Enfermaria, que, em 1962, viria a denominar-se 38ª.

Com espírito de liderança, o Dr. Pitanguy formou um grupo de ajudantes e passou a desenvolver a especialidade de forma plena. Teve a seu lado, desde o início, a Irmã Apoline, que desempenhou papel fundamental na organização da 38ª durante muitos anos. Quem desejasse aprender cirurgia plástica na época tinha a 38ª como passagem obrigatória.

Em 1960, inspirado no modelo americano de residência medica, inicia na 38ª o curso de pós-graduação em cirurgia plástica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O Prof. Pitanguy passa a desenvolver e divulgar, em âmbitos nacional e internacional, inúmeras técnicas em cirurgia estética e reparadora que formam a base de sua escola.

Primeira turma de pós-graduandos do Serviço do Prof. Ivo Pitanguy

 

Em 17 de dezembro de 1961, ocorreu o Incêndio do Gran Circo de Niterói. Um doente psiquiátrico ateou fogo à lona do circo, que em minutos ardia em chamas. Foi o maior acidente em ambiente fechado do mundo até então, com 2.500 queimados e mais de 500 mortos, em sua maioria crianças. O Prof. Pitanguy deslocou sua equipe de colaboradores para o Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói, oferecendo tratamento aos pacientes queimados. Este fato marcou para sempre a vida do Prof. Pitanguy e da Enfermaria 38. O relato do atendimento às vítimas do incêndio correu o mundo, e a tragédia mostrou à população e à classe médica a importância social da cirurgia plástica, devolvendo feições próximas do normal a centenas de pessoas com sequelas.

Incêndio no Gran-circo, em Niteroi (1961).

 

Em 1963, foi fundada a Clinica Ivo Pitanguy, centro pioneiro em cirurgia plástica no pais. No ano seguinte, foi criado o Centro de Estudos Ivo Pitanguy (CEIP), que une o curso de Pós-graduação e a Enfermaria 38 ao centro cirúrgico e à biblioteca da Clínica. Com isso os pós-graduandos têm a oportunidade singular de, além de aprender e praticar a especialidade, conhecer suas bases científicas através de estudo em uma biblioteca completa e assistir às cirurgias realizadas pelo Prof. Pitanguy e sua equipe.

Em 1971, foi editado no CEIP o Boletim de Cirurgia Plástica, órgão de divulgação científica da especialidade, integrante da Revista Brasileira de Cirurgia até 1997. Em 28 de junho de 1973, o prof. Pitanguy assumiu a cadeira de número 67 da Academia Nacional de Medicina.

 

PROJEÇÃO INTERNACIONAL

O nome da Enfermaria 38 e do Prof. Pitanguy já não pertenciam às fronteiras de nosso país. O trabalho desenvolvido alcançou projeção internacional, e profissionais de diversos países vieram para o Brasil aperfeiçoar-se em cirurgia plástica. Atualmente, o Brasil é considerado referência mundial na especialidade.

A 38ª alcançara tal fama, que pacientes de todos os estados do Brasil e do exterior enfrentavam filas para serem submetidos a cirurgias estéticas e reparadoras. Grandes nomes da cirurgia plástica brasileira foram formados na 38ª. Muitos deles foram pioneiros em seus estados de origem e chefiam serviços, formando novos profissionais dentro da filosofia da Escola Pitanguy (Quadro 1).

 

Quadro 1- Estados do Brasil com Ex-Alunos da Escola Pitanguy (Total = 23)

 

 

STATUS ATUAL DA ENFERMARIA

Em 1986, a cadeira de cirurgia plástica do Instituto Carlos Chagas passou a integrar o CEIP. Até 2012, 571 cirurgiões de mais de 40 países foram formados na Escola Pitanguy. Um total de 5.417 médicos, brasileiros e estrangeiros, já passaram pelo Serviço como visitantes da 38a. Enf. da SCM, que conta com mais de 45.000 pacientes operados em mais de 30 cirurgiões colaboradores no seu copro docente. Além das equipes cirúrgicas e de enfermagem, a Enfermaria 38 tem ainda uma equipe multidisciplinar: psicóloga, nutricionista, fisioterapeuta, cardiologista, ortodontista, fotógrafo, assistente social.

 

Distribuição Geográfica dos Ex-Alunos da Escola Pitanguy

 

No ambulatório da 38ª, são atendidos cerca de 3 mil pacientes a cada ano, a maioria deles pessoas carentes.

Uma média de mil cirurgias são realizadas anualmente, uma parte significativa em pacientes que apresentam deformidades congênitas ou sequelas de trauma, queimaduras e tumores. As cirurgias estéticas também são realizadas.

Às quartas-feiras, cumprindo uma rotina de 50 anos, o Prof. Pitanguy vai à Enfermaria 38 da Santa Casa, onde discute os casos mais complexos e orienta cirurgias, compartilhando com os iniciantes a experiência acumulada ao longo de todos estes anos.

Todos os anos são oferecidas de 12-14 vagas para o curso de pós-graduação, que são disputadas por candidatos de vários países do mundo. É necessário ter cursado um mínimo de dois anos de cirurgia geral. O processo seletivo é bastante rigoroso, com avaliação escrita dos conhecimentos de cirurgia geral, proficiência nas línguas inglesa e portuguesa, análise curricular e entrevista com o candidato.

Exemplo de pioneirismo, excelência na produção técnico-científica e formação de profissionais, a 38ª Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro tornou-se importante centro de referência da cirurgia plástica brasileira, para onde migram aqueles que desejam iniciar-se ou aprimorar-se nesta ”arte-ciência” médica. Antes de tudo é também outra das muitas enfermarias da Santa Casa que atendem esperançosos brasileiros anônimos há mais de 4 séculos: uma casa de mestres onde, todos os anos, o frescor e a curiosidade da juventude aportam em busca do saber médico, renovando sempre os ares dos antigos corredores da velha Santa Casa.

 

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.  Couto B – Discurso ao receber o acadêmico Ivo Pitanguy na Academia Nacional de Medicina em 28 de Junho de 7973, An Acad Nac Med, p. 192-200,1973.

2.  Franco T e Rebello C – Cirurgia Estética (Atheneu – Rio de Janeiro – RJ, 1977).

3.  Gente do Século. Ivo Pitanguy – biografia (Três – São Paulo – SP, 1999).

4.  Loeb R – História da Cirurgia Plástica Brasileira ”150 Anos de Evolução” (Medsi – Rio de Janeiro – RJ, 1993).

5.  Meira DG – Contribuição à História da Anestesia no Brasil (Guanabara – Rio de Janeiro – RJ, 1968).

6.  Paulino Netto A – Professor Augusto Paulino e a Misericórdia do Rio de Janeiro, Acta Medica Misericordiae, 1(2), 1999 – disponível em:

http://www.scms.com.br/acta/acta-1-2-99,/materia5.htm.

7.  Pitanguy I – Discurso proferido por ocasião de sua posse na Academia Nacional de Medicina, An Acad Nac Med, p. 201-208, 1973.

8.  Pitanguy I – Direito à Beleza (Record – Rio de Janeiro – RJ, 1984).

9.  Pitanguy I – Aprendendo com a Vida (Best Seller – São Paulo – SP, 1993.

 

10.   Pitanguy I, Sinder R, Carreirão S, Salgado F – Trinta anos de experiência na formação do cirurgião plástico, Rev Bras Cir, 83(1): 37-50, 1993.

11.   Porto W – Fernando Paulino, o cirurgião (Companhia Editora de Pernambuco – Recife – PE, 1986).

12.   Santa Casa: uma Página da História do Brasil. Jornal do CREMERJ, 148: 10-11, 2003.

13.  Crisóstomo MR. Importância da 38ª Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro para a Cirurgia Plástica Brasileira. Anais da Academia Nacional de Medicina. Vol 163(1), p.III-VII. 2003