A lipoabdominoplastia e sua história

Abstract

As dermolipectomias abdominais vêm sendo realizadas há mais de um século. As primeiras referências são sobre excisões simples, em uma só direção, sem descolamento e sem atenção à cicatriz umbilical. Com o passar do tempo, essa cirurgia foi evoluindo, até chegar às técnicas mais elaboradas e de uso atuais. Um passo importante foi a transposição do umbigo, que só foi possível devido ao descolamento do retalho superior. A partir de 1980, a lipoaspiração foi incorporada a muitos procedimentos da cirurgia plástica para potencializar os resultados. Seu uso exagerado levou ao aumento das complicações, especialmente nas abdominoplastias pelo duplo traumatismo do retalho abdominal. Criou-se, então, o MITO da proibição na associação dos dois procedimentos. Somente a partir do ano 2000, com o desenvolvimento da Lipoabdominoplastia, ficou padronizada e sistematizada a associação da lipoaspiração com a abdominoplastia, representando o link para a associação segura dessas duas técnicas tradicionais. O aspecto novo, fundamental e óbvio foi aproveitar as características da vascularização profunda – vasos perfurantes abdominais, que migram pela bainha aponeurótica, para nutrir o retalho abdominal, proporcionado pela criação de um túnel estreito no abdome superior, o suficiente para realizar a plicatura direta dos retos abdominais, mantendo assim, a maioria dos vasos perfurantes preservada. Ela representa o momento evolutivo da cirurgia plástica abdominal, fruto de mais de uma geração de cirurgiões plásticos que trabalharam e trabalham constantemente em busca de um novo caminho com menor risco de complicações e melhores resultados.

INTRODUÇÃO

As alterações funcionais e estéticas que ocorrem na pele, tecido adiposo subcutâneo, fáscia e músculos, produzem repercussões frequentes nas esferas anatômica, psicológica e fisiológica. Elas aparecem devido à alimentação inadequada, falta de exercícios físicos, perda da elasticidade da pele, especialmente nas pacientes pós-gestações ou que tiveram grande perda de peso. Nesses casos, a cirurgia para correção das deformidades da parede abdominal representa um importante capítulo da cirurgia plástica para reparar a anatomia, função e contorno abdominais.

As primeiras descrições de correção das deformidades da parede abdominal estavam associadas a correções de hérnias umbilicais, que exigiam a retirada de gordura e pele concomitantemente.

 

Histórico

Didaticamente, podemos dividir a história da abdominoplastia em quatro períodos, como se seguem:

 

1º Período

Iniciado em 1880, quando Demars e Marx 6, na França, relataram uma ressecção de pele e gordura na parede abdominal. No ano de 1899, Kelly 14 utilizou uma ressecção cutânea, elíptica e transversal em torno do umbigo, que era envolvido na ressecção, iniciando o desafio dos cirurgiões para o tratamento das deformidades do abdome (Fig. 1). Em 1916, Babcock² recomendou uma elipse central, do apêndice xifóide ao púbis, ressecando o umbigo – esse tipo de ressecção vertical foi utilizado por poucos autores nesse período, mas vem sendo revivida na última década para o tratamento para as pacientes pós-bariatricas, que na maioria dos casos termina com cicatriz em “âncora” e sem descolamentos do retalho. Em 1931, Passot 18 descreve uma incisão baixa, horizontal, com desengorduramento até a região umbilical. Thorek 30,31, em 1939, descreve técnica que chamou de “lipectomia plástica”, em que, mediante incisão oblíqua inferior, resseca o abdome em pêndulo, com posterior enxerto do umbigo. Sugere a possibilidade da transposição do umbigo, embora não a realize. Somalo 27 em 1940 é o primeiro a falar em belt lipectomy ou lipectomia em cinto. Todas essas técnicas envolviam ressecção de pele e gordura com muito pouco ou nenhum descolamento da parede abdominal.

Fig. 1. Lipectomia abdominal descrita por Kelly

 

2º Período

Um marco importante nas abdominoplastias foi o trabalho de Vernon, em 195732que combinou incisão transversa, semelhante à de Thorek30,31, com o descolamento do retalho abdominal superior e a transposição do umbigo. Em 1965, Callia,4 em tese de doutoramento, coloca a parte mediana da incisão sobre o púbis e seus prolongamentos laterais paralelos às arcadas crurais e abaixo delas, deixando a cicatriz em zona escondida. Esse tipo de incisão abre nova fase na história das abdominoplastias. Pitanguy19,20, em 1967, defende a incisão horizontal, um pouco acima do púbis, curvando-se para baixo lateralmente, com descolamento intenso e transposição umbilical. Sua grande contribuição foi no que diz respeito ao pregueamento do músculo reto abdominal, sem abertura da aponeurose (Fig. 2). Em 1974, enfatiza a necessidade de as incisões laterais se curvarem para baixo ou para cima, dependendo do caso. Em 1972, Rebello e Franco21 descrevem técnica utilizando incisão submamária para retirar a gordura localizada no abdome superior, podendo ser associada também a incisão horizontal supra púbica. Em 1975, Sinder26 publica a marcação prévia, com triângulo, só retirando o retalho inferior após o descolamento do retalho superior, posicionando a partir daí a altura da cicatriz. Vários autores contribuíram para a abdominoplastia por meio de detalhes técnicos, principalmente relacionadas ao tratamento da cicatriz umbilical, parede muscular, lipectomias e a associação a outras cirurgias. Cardoso de Castro5, em 1977, apresenta estudo da associação das abdominoplastias com cirurgias ginecológicas. Hakme10 , em 1979, enfatiza a lipectomia peri e supra-umbilical, que produz melhor resultado final pela depressão causada nessa região, o que dá um aspecto mais natural. Relata também a incisão em cruz para o tratamento do umbigo, ressecando quatro triângulos nas bordas de encontro da cruz, resultando em uma cicatriz umbilical losangular.

Fig. 2. Marcação Pitanguy

3º Período

O ano de 1980 foi um marco na história da cirurgia abdominal. A lipoaspiração, desenvolvida por Illouz12, mudou completamente a história da abdominoplastia. Nessa década, surgiram as cirurgias intermediárias entre a lipoaspiração e a abdominoplastia tradicional. Em 1982 surgiram trabalhos que utilizavam as duas técnicas associadas, com descolamento amplo, conduta polêmica por um longo período e que foi desaconselhada posteriormente pela maioria dos autores pela possibilidade de aumento na taxa de complicações, especialmente necrose do retalho abdominal. Em 1983, De Souza Pinto7 apresenta a lipoaspiração superficial, inicialmente indicada para os casos de intensa celulite, mas posteriormente com indicações mais amplas. Hakme11 em 1985, apresenta uma nova abordagem para as lipectomias abdominais, que consiste na lipoaspiração de todo o abdome e dos flancos, associada à ressecção de uma elipse de pele junto à região supra púbica, plicatura muscular supra e infra-umbilical, sem desinserção da cicatriz umbilical, fixando o umbigo, com a finalidade de evitar seu deslocamento no pós-operatório, denominando a técnica de mini-lipo-abdominoplastia (Fig. 3). Em 1986, Baroudi³ preconiza a utilização de pontos de adesão para diminuir o espaço morto e a formação de seroma. Willkinson 33, em 1986, associa a lipoaspiração à abdominoplastia parcial, descrevendo outra técnica para a mini-abdominoplastia. Ainda em 1986, Storck 28 apresenta, no Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica em Belo Horizonte, sua experiência utilizando a lipoaspiração como complementação cirúrgica da mini-abdominoplastia, executando incisão semilunar de 12 a 14 cm dentro dos pêlos pubianos, lipoaspiração profunda e plicatura xifopubiana, suturando o pedículo umbilical desinserido. No início da década de 1990 começaram a surgir trabalhos relacionados com a associação da lipoaspiração à cirurgia abdominal, com propostas de redução do descolamento do retalho abdominal, para diminuir as estatísticas de complicações. Em 1992, Illouz 13 publica um trabalho em que realizava lipoaspiração em abdominoplastia tradicional, sem descolamento do retalho abdominal – “mesh undermining”, com indicação restrita aos pacientes com panículo adiposo espesso e grande excesso de pele. Embora não tenha tido a mesma divulgação da sua técnica de lipoaspiração, foi outro marco na história da moderna abdominoplastia, com influência nos demais trabalhos que surgiram posteriormente. Em 1995, Matarasso 15,16 publica dois trabalhos com estudo anatômico, em que recomenda áreas seguras para a lipoaspiração no mesmo tempo da abdominoplastia (dorso e flancos), desaconselháveis (laterais do abdome) e proibida (região central, correspondente ao descolamento do retalho) (Fig. 4). Em 1999, Shestak 25 relata a associação de lipoaspiração e ressecção parcial de pele supra púbica, sem descolamento do retalho abdominal. Em 2000, Avelar¹ publica trabalho de lipoaspiração associada à miniabdominoplastia sem descolamento do retalho, em que faz ressecção parcial de pele supra púbica para tratar o abdome inferior e excisão de pele nos sulcos mamários para o tratamento do abdome superior, sem transposição do umbigo. Quando necessário, faz plicatura videoendoscópica.

Fig. 3. Minilipoabdominoplastia de Hakme

Fig. 4. Áreas seguras e proibidas para a lipoaspiração

 

 

4º Período

No ano de 2000, Saldanha 22,23,24 desenvolve e publica em 2001 primeiro trabalho sobre lipoaspiração completa do abdome associada à abdominoplastia tradicional, com descolamento seletivo do retalho abdominal (túnel na linha alba, entre as bordas internas dos músculos retos abdominais, preservando os vasos perfurantes) e transposição do umbigo (Figs. 5 e 6). A partir daí, ficou padronizada a forma segura da associação das duas técnicas, com indicação ampla, desmistificando o “MITO”. Esse novo procedimento foi chamado de Lipoabdominoplastia com descolamento seletivo – Técnica Saldanha.

Fig. 5. Descolamento tradicional antes e após plicatura

 Fig. 6. Descolamento seletivo na lipoabdominoplastia antes e após plicatura

 

 

O “Acaso e a Necessidade”

No final da década de 90, muitos temas circundavam a cirurgia plástica abdominal. Trabalhos com evidência científica mostrando a incompatibilidade da associação da lipoaspiração com a abdominoplastia. Soma-se a isso, a crescente indústria do “erro médico”, criando uma frustrante expectativa dos cirurgiões plásticos. Nesse contexto, a abdominoplastia apresentava a maior taxa de complicações, especialmente a necrose de pele que correspondia a 4-6% na literatura mundial. Uma transformação silenciosa estava acontecendo naquela época, proporcionando o amadurecimento de uma nova abordagem conservadora – a lipoabdominoplastia. Os detalhes estavam ali, à disposição e prontos para serem usados. Vejamos a ordem cronológica das técnicas e táticas que, direta ou indiretamente a influenciaram:

  1. Sabia-se que o amplo descolamento tradicional era inadequado e fator preponderante na alta taxa de complicações;
  2. Trabalhos como o de Matarasso, alertavam para as áreas seguras e áreas não recomentáveis para a lipoaspiração no mesmo tempo cirúrgico da abdominoplastia. A associação com a lipoaspiração era, naqueles moldes, desaconselável;
  3. A óbvia anatomia estava presenta, embora virtualmente “invisível”, só precisava ser aproveitada de forma prática. A dificuldade era porque a memória do cirurgião plástico estava concentrada na “proibição” do uso da lipoaspiração durante a plástica abdominal.
  4. Desde o início da década havia uma tendência para a diminuição do descolamento do retalho;
  5. Em 1992, Illouz publica uma nova abordagem para a abdominoplastia sem nenhum descolamento, embora com indicações restritas;
  6. A mini-abdominoplastia começa a ser executada sem descolamento
  7. A demanda jurídica relacionada a abdominoplastia representava mais de 70% dos processos contra o cirurgião plástico;

 

Esses e outros fatores trilharam o caminho para lipoabdominoplastia, e que corresponde a este 4º período evolutivo.

 

Como surgiu a ideia?

No ano 2000, foi realizada a primeira lipoabdominoplastia sem descolamento do retalho, que logo após alguns casos, evoluiu para a lipoabdominoplastia com descolamento seletivo. A idéia surgiu, “casualmente”, quando executávamos uma mini-abdominoplastia, com ressecção parcial de pele infra-umbilical. Devido à idade da paciente (25 anos e nulípara), não planejamos uma abdominoplastia, embora fosse o desejo inicial da paciente. Durante a cirurgia, após a remoção parcial de pele supra púbica e sutura, percebemos que o restante de pele do abdome inferior necessitava ser removido, pois havia redundância de pele no abdome superior, queixa principal da paciente. Como havíamos feito a lipoaspiração prévia, não era prudente fazermos o descolamento tradicional do retalho, devido ao risco de comprometermos a vascularização do mesmo.

Foi então que, com a manobra bi digital, descobrimos que a lipoaspiração tinha liberado o retalho e seus túneis tinham produzido um “descolamento” suficiente para a descida do mesmo até o púbis, sem necessidade de ampliarmos o descolamento. Confeccionamos assim, um túnel restrito, apenas para a transposição do umbigo.

Executamos esse procedimento (lipoabdominoplastia sem descolamento) em alguns poucos pacientes com discreto ou nenhum grau de diástase dos retos abdominais (Figs. 7-10).

Fig. 7. Ressecção para mini-lipoabdominoplastia

Fig. 8. Complementação da ressecção de pele para lipoabdominoplastia

Fig. 9. Confecção de um túnel estreito para a transposição do umbigo

Fig. 10. Final da cirurgia

 

 

Nosso desafio começou quando desejamos iniciar a técnica em pacientes com acentuado grau de diástase.

Com a ajuda dos nossos residentes, realizamos um estudo anatômico em 10 cadáveres, que consistiu na identificação da epigástrica inferior, com infiltração de azul-de-metileno, mapeando os vasos perfurantes abdominais. Esse estudo demonstrou a fixação do corante fora da linha média (Alba), dirigindo-se para toda a lateral do abdome. Tal fato também foi observado em estudos com cintilografia.

A partir daí, começamos a realizar um descolamento restrito na linha média abdominal, que, além de facilitar a descida do retalho, também possibilitaria a execução de uma discreta plicatura dos músculos retos abdominais (Fig 11). Mas ainda faltava maior estudo científico e anatômico para termos segurança quanto à ampliação do descolamento do túnel.

Fig. 11. Túnel abdominal restrito

 

Iniciamos um trabalho de pesquisa bibliográfica, com base nos trabalhos de estudo anatômico, relacionados com a reconstrução mamária. Foi esse o passo decisivo na padronização do descolamento do túnel na lipoabdominoplastia, pois pudemos comprovar, com precisão, a localização dos vasos perfurantes abdominais, ramos das epigástricas superiores e inferiores. Dessa forma, definimos a área segura de descolamento do túnel que corresponde ao espaço entre as bordas internas dos músculos retos abdominais (Fig. 12). Entre muitos trabalhos estudados, os que mais influenciaram a lipoabdominoplastia foram os de Ian Taylor29  e Hamdy8, em que concluem que 80% do suprimento sanguíneo da parede abdominal provêm das perfurantes.

Fig. 12. Descolamento seletivo

 

Dentro da evolução, dois trabalhos tiveram importância fundamenta: Graf9, em 2002, fez estudo com Echo-Doppler onde observou a preservação da perfurante peri-umbilical no 15º dia de pós-operatório de lipoabdominoplastia e Alexandre Munhoz17, com um estudo quantitativo, através de Doppler Colorido, estudou o fluxo das perfurantes abdominais na lipoabdominoplastia, mapeando os vasos perfurantes abdominais no pré e pós-operatório de três meses, comprovando a preservação de 81% deles.

Em 2001, fizemos a primeira publicação sobre a lipoabdominoplastia22, com todos os detalhes da técnica, como a lipoaspiração superficial e profunda, descolamento do túnel respeitando a vascularização, preservação da fáscia de Scarpa, ressecção de fuso infra-umbilical (envolvendo a fáscia de Scarpa e tecido conjuntivo) para poder executar a plicatura xifopubiana e, finalmente, a transposição do umbigo.

Foi exatamente a lipoaspiração (principalmente a superficial), que sempre foi contra-indicada no mesmo tempo da abdominoplastia, que tornou possível o desenvolvimento da técnica, pois é a responsável pela liberação e pelo deslizamento do retalho abdominal até o púbis. Assim sendo, o abdome superior torna-se um retalho de deslizamento com pedículo subcutâneo. Por esse motivo, pode-se associar a lipoaspiração à abdominoplastia clássica de forma segura, pois há a preservação de quase toda a circulação sanguínea, vinda das perfurantes, além dos linfáticos e nervos.

O início foi de grande ceticismo, pois representava uma mudança de concepção no tratamento da plástica abdominal. Mas, a lipoabdominoplastia teve a felicidade de encontrar muitos colegas com grande interesse científico, e que de imediato aprovaram a idéia e começaram a sua execução, contribuindo muito com sua evolução, seu suporte científico, seu aprimoramento técnico e sua credibilidade. E mais, contribuíram e incorporaram outros procedimentos próprios, para se adequar às suas necessidades.

 

 

LIPOABDOMINOPLASTIA – FUNDAMENTOS DA TÉCNICA CIRÚRGICA

A lipoaspiração representa um dos fundamentos da lipoabdominoplastia, pois promove maior mobilidade do retalho abdominal, para que o mesmo deslize com maior facilidade e atinja a região supra púbica.

O segundo fundamento é representado pelo estudo anatômico da localização exata dos vasos perfurantes abdominais, para que possam ser preservados durante a execução da técnica.

Seleção dos pacientes

Quase todos os pacientes com indicação para a abdominoplastia clássica podem ser submetidos à lipoabdominoplastia.

Tempos cirúrgicos:

Marcação

É iniciada na região supra púbica, com 14 cm de extensão horizontal e 7 cm de traçado oblíquo de cada lado, em direção às cristas ilíacas, com linhas levemente curvas com concavidade para baixo (Fig. 13). Quando necessários – a maioria dos casos, marcamos as áreas dorsais a serem lipoaspiradas.

Fig. 13. Marcação

Infiltração

Utilizamos a técnica úmida, com infiltração de toda a região abdominal com solução salina com adrenalina a 1:500.000, utilizando em média 1-1,5 l da solução.

 

Lipoaspiração superior

Para maior segurança na execução da lipoaspiração, coloca-se a paciente em posição hiperestendida na mesa cirúrgica. Inicia-se a aspiração na região supra-umbilical, com cânulas de 3 e 4 mm, removendo gordura das camadas profunda e superficial, continuando-se com os flancos. À semelhança da lipoaspiração clássica, deve-se manter uma espessura de gordura de mais ou menos 2,5 cm, para evitar comprometimento vascular e deformidades de contorno (Fig. 14).

Fig. 14. Lipoaspiração do abdome superior

Abdome inferior

Na região infra-umbilical, para facilitar a visualização e a preservação da fáscia de Scarpa, pode-se aspirar com cânulas de 6 mm toda a gordura da camada superficial e parcialmente da profunda (Fig. 15). Nesse tempo, faz-se uma avaliação da descida do retalho, e se continua com o isolamento do umbigo e ressecção completa da pele infra-umbilical, semelhante à abdominoplastia clássica. Quando necessário, faz-se uma lipoaspiração complementar (“a céu aberto”), para remover restos de gordura acima da fáscia de Scarpa e também abaixo dela, com finalidade de deixar um leito homogêneo para melhor acomodação do retalho superior, que desce mais fino.

Fig. 15. Lipoaspiração do abdome inferior e ressecção de pele

Descolamento seletivo

Nesse momento, inicia-se o descolamento do túnel na linha média do abdome superior, entre as bordas internas dos músculos retos abdominais. Deve-se evitar que o descolamento atinja o terço médio desses músculos, pois a partir daí podem ser seccionados os vasos perfurantes abdominais, o que aumentaria a morbidade e o risco de necrose do retalho abdominal. O descolamento do túnel pode atingir o apêndice xifóide, dependendo da necessidade da plicatura. Para melhor visualização das estruturas anatômicas e facilitar a execução da plicatura, desenvolvemos um retrator que amplia a área operatória e evita traumatismo da borda do retalho (Fig. 16).

Fig. 16. Descolamento seletivo, preservando as perfurantes abdominais

Preservação da fáscia de Scarpa

A preservação da fáscia de Scarpa é de extrema importância, por vários motivos: menor sangramento, suporte homogêneo para o retalho superior, contenção da extensão da cicatriz nas laterais, melhor aderência entre o retalho e os planos profundos, melhor drenagem linfática, etc (Fig. 17).

Fig. 17. Preservação da fáscia de Scarpa.

Ressecção de fuso infra-umbilical

Na linha média infra-umbilical, remove-se um fuso vertical, contendo fáscia de Scarpa e tecido gorduroso, para expor as bordas internas dos retos abdominais, e assim realizar a plicatura xifopubiana (Figs. 18)

Fig. 18. Ressecção do fuso infra-umbilical

Onfaloplastia

Utiliza-se a técnica “em estrela”, que consiste em uma “marcação em cruz” na parede abdominal e retangular no pedículo umbilical. Os pontos cardeais do pedículo umbilical são suturados, encaixando-se nos da incisão cruciforme da pele abdominal. A cicatriz resultante é em z-plastia contínua, apresentando menor possibilidade de retração (Figs. 19a e 19b).

      Fig. 19a. Marcação neo-umbigo

Fig. 19b. Neo-onfaloplastia

Sutura por plano

O fechamento do abdome é feito em dois planos, com monocril 3-0 na camada profunda e monocril 4-0 na subderme. A pele é suturada com mono náilon 5-0 em pontos separados. Utiliza-se dreno de aspiração contínua, por um ou dois dias (Fig. 20).

Fig. 20. Sutura final e colocação de drenos

Curativo

O curativo é feito com micropore direto sobre a sutura, sendo trocado no terceiro e no oitavo dias de pós-operatório, quando são retirados todos os pontos, exceto os do umbigo, que são removidos no 12o dia após a cirurgia.

 

COMPLICAÇÕES

A seqüência sistemática e cuidadosa de todos os tempos cirúrgicos tem demonstrado a importante redução das complicações, principalmente das mais difíceis de tratar e que comprometem a relação médico-paciente, correspondendo aos casos de sofrimento do retalho e necrose de pele.

Os casos de complementação de lipoaspiração e flacidez pós-operatória em 2002 e 2003 correspondem aos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica previamente e que apresentam grande grau de flacidez de pele.

PÓS-OPERATÓRIO

As pacientes operadas pela técnica de lipoabdominoplastia apresentam um pós-operatório intermediário entre uma abdominoplastia e uma lipoaspiração, porque o procedimento é pouco invasivo, provoca pequeno traumatismo vascular e nervoso, além de ter discreto espaço morto. A união desses fatores resulta em menor morbidade. Assim sendo, retornam mais precocemente às suas atividades profissionais e sociais.

VANTAGENS

 

Podemos citar vários pontos positivos a considerar:

•  Melhor contorno corporal devido à utilização da lipoaspiração.

•  Menor morbidade devido à preservação dos vasos perfurantes e ausência de espaço morto sob o retalho.

•  Baixo índice de complicações.

•  Fácil execução, pois todos os cirurgiões executam a lipoaspiração e a abdominoplastia tradicional.

•  Linha do perfil mais natural.

•  Sensibilidade supra púbica preservada.

•  Rápida recuperação pós-operatória.

•  Pode ser associada a vibro lipoaspiração ou ultra-sônica.

Apresenta ainda grande segurança nas pacientes tabagistas ou que tenham sido submetidas a cirurgias abdominais prévias, pós-cirurgias bariátricas ou ainda em abdominoplastias reversas.

Não podemos deixar de lembrar para evitar exagero no entusiasmo da aplicação da técnica, tomando-se cuidado com as pacientes portadoras de hérnias abdominais.

 

RESULTADOS

Os resultados são considerados bons e ótimos, principalmente pela avaliação dos pacientes, que chamam a atenção para o contorno, o rejuvenescimento abdominal, a menor extensão da cicatriz, a forma do umbigo e a diminuição das medidas em toda a área do abdome (Figs. 21 a 23).

Fig. 21a. Pré-op

 Fig. 21b. Pós-op

Fig. 22a. Pré-op

 Fig. 22b. Pós-op

Fig. 23a. Pré-op

 Fig. 23b. Pós-op

COMENTÁRIOS

A cirurgia plástica abdominal com descolamento amplo apresenta morbidade elevada, em decorrência da necessidade de um grande descolamento do retalho, onde são seccionados os vasos perfurantes que representam 80% da nutrição da parede abdominal, como confirma a literatura a respeito.

A lipoabdominoplastia se baseia no descolamento seletivo do retalho abdominal na linha média superior, preservando a quase totalidade desses vasos perfurantes, linfáticos e nervos, o que diminui consideravelmente as complicações.

O objetivo inicial da técnica era realizar a abdominoplastia de maneira mais segura. Mas, com a evolução da mesma, foi possível constatar os benefícios da lipoaspiração, com melhoria no contorno abdominal e corporal

Devido à abordagem conservadora, pode-se utilizar a lipoaspiração de todas as regiões do abdome e do dorso de forma segura, e assim proporcionar uma silhueta mais harmoniosa.

Contudo, é necessária adaptação progressiva à técnica, iniciando-se com os casos em que haja maior­ grau de flacidez de pele e acúmulo adiposo suficiente­ para se realizar uma lipoaspiração e liberar o retalho com facilidade. Recomendamos aos iniciantes da técnica que sigam a rotina cirúrgica igual a quando executamos a primeira lipoabdominoplastia, começando com ressecção parcial de pele, e durante a cirurgia façam o teste para remoção total de pele infra-umbilical.

 

 

CONCLUSÃO

O desenvolvimento da lipoabdominoplastia foi fruto da observação clinico-cirúrgica, estudo anatômico em cadáver, pesquisa em trabalhos científicos das perfurantes abdominais e da utilização de várias idéias e técnicas de colegas, desenvolvidas nos últimos 20 anos. Baseia-se na lipoaspiração que possibilita o deslizamento do retalho, e na preservação dos vasos perfurantes abdominais..

A lipoabdominoplastia não é uma técnica diferente da tradicional. Ambas tratam as mesmas estruturas, como: excisão total de pele infra-umbilical, deslizamento do retalho supra-umbilical até o púbis, plicatura dos músculos retos abdominais e transposição do umbigo. A diferença encontra-se na padronização pouco invasiva das estruturas anatômicas, onde pudermos utilizar a lipoaspiração no mesmo tempo cirúrgico da abdominoplastia. Ao contrário do descolamento tradicional e amplo, faz-se apenas um túnel na região central do abdome superior, que, além de permitir a plicatura dos músculos retos abdominais, evita a secção dos vasos perfurantes. A descida do retalho é facilitada pelo descolamento feito pela cânula de lipoaspiração.

Não se pode assumir, isoladamente, qualquer técnica nova, pois ela se deve à participação de vários outros movimentos de idéias e procedimentos, que amadurecem e progridem constantemente. Por esse e outros motivos, qualquer técnica tem que ser dividida com aqueles que tiveram uma participação mais próxima no desenvolvimento da mesma.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Avelar JM. Abdominoplasty: A new technique without undermining and fat layer removal. Arq Catarinense Med 2000; 29: 147-9.
  2. Babcock WW. On diseases of women and children. J Obst 1916; 74: 596.
  3. Baroudi R, Ferreira CAA. Seroma how to avoid it and how to treat it. Aesth Surg J 1988; 18: 439.
  4. Callia WEP. Contribuição para o estudo da correção cirúrgica do abdome pêndulo e globoso – técnica original. Tese de Doutoramento apresentada à Faculdade de Medicina da USP – São Paulo, 1965.
  5. Castro CC. Estudo da Associação Cirúrgica da Plástica de Abdome com procedimentos ginecológicos. J Bras 1977; 83: 137.
  6. Demars & Marx. Citado em Voloir P. Opéracion plastiques sus-aponévrotiques sur la paroi abdominale rieure. These, Paris, 1960.
  7. De Souza Pinto EB. Our experience in liposuction. Ann Cong Bras Plast Surg 1983.
  8. El-Mrakby HH, Milner RH. The vascular anatomy of the lower anterior abdominal wall: A microdissection study on the deep inferior epigastric vessels and the perforator branches. Plast Reconstr Surg. 2002;109:539–543; discussion 544–547
  9. Graf R. Lipoabdominoplasty: Fluxmetry study and technical variation. In: Lipoabdominoplasty. Rio de Janeiro, Brazil: Di-Livros; 2006
  10. Hakme F. Lipectomia peri e supra-umbilical nas abdominoplastias. Rev Bras Cir 1979; 69: 271.
  11. Hakme F. Technical details in the lipoaspiration associate with liposuction. Rev Bras Cir 1985; 75(5): 331-7.
  12. Illouz YG. Une nouvelle technique pour les lipodystrophies localis. Es Rev Chir Esth France 1980; 6.
  13. Illouz YG. A new safe and aesthetic approach to suction abdominoplasty. Aesth Plast Surg 1992; 16: 237-45.
  14. Kelly HA. Report of gynecological cases. Johns Hopkins Med J 1899; 10: 197.
  15. Matarasso A. Abdominoplasty: A system of classification and treatment for combined abdominoplasty and suction-assisted lipectomy. Aesth Plast Surg 1991; 15: 111.
  16. Matarasso A. Liposuction as an adjunct to full abdominoplasty. Plast Reconstr Surg 1995; 95: 829-36.
  17. Munhoz AM, Ishida LH, Sturtz G, et al. Importance of the lateral row perforator vessels in deep inferior epigastric perforator flap harvesting. Plast Reconstr Surg. 2004;113:517–524
  18. Passot R. Chirurgie Esthétique Pure. G Doin Editeur, Paris, 1931: 261-7.
  19. Pitanguy I. Abdominoplastias. O Hospital 1967; 71(6): 1.541-56.
  20. Pitanguy I, Yabar AA, Pires CEB, Matta SR. Aspectos atuais em lipectomia abdominal. Rev Bras Cir 1974; 64(5/6).
  21. Rebello C, Lion P, Franco T. Abdominoplasty through submammary incision. Intern Cong – International Soc. of Aesthetic Plastic Surg, Rio de Janeiro. Ed. Publicaciones Controladas, Madrid, 1972: 58.
  22. Saldanha OR. Lipoabdominoplasty without undermining. Aesth Surg J 2001; 21: 518-26.
  23. .Saldanha OR. Lipoabdominoplasty with selective and safe undermining. Aesth Plast Surg 2003; 27(4): 322-7.
  24. Saldanha OR Lipoabdominoplasty. Plast. Reconstr. Surg. September 124: 934,
  25. Shestak KC. Marriage abdominoplasty expands the mini-abdominoplasty concept. Plast Reconstr Surg 1999; 103: 1.020-31.
  26. Sinder R. Plastic Surgery of the abdomen – Personal Technique. In: Abstracts of the 6th Internacional Congress of Plastic and Reconstructive Surgery. Paris, Masson, 1975: 58.
  27. Somalo M. Dermolipectomia circular del tronco. Sem Med 1940: 1: 1.435-43.
  28. Storck R. Lipo-mini-abdominoplastia. Em: Atualização em Cirurgia Plástica Estética, SBCP Reg. São Paulo, 1994.
  29. Taylor GI, Watterson PA, Zelt RG. The vascular anatomy of the anterior abdominal wall: The basis for flap design. Perspect Plast Surg. 1991;5:1.
  30. Thorek M. Plastic reconstruction of the female breasts and abdomen. Am J Surg 1939; 43: 268-78.
  31. Thorek M. Plastic Surgery of the breast and abdominal wall. Springfield: Ed. Charles C. Thomas, 1942: 111.
  32. Vernon S. Umbilical transplantation upward and abdominal contouring in lipectomy. Am J Surg 1957; 94: 490-2.
  33. Willkinson TS, Swartz BE. Individual modifications in body contour surgery: The “limited” abdominoplasty. Plast Reconstr Surg 1986; 77: 779-84.

.