A História da Cirurgia Craniofacial no Brasil

Resumo

Este artigo conta a história da cirurgia craniofacial no Brasil e sua importância no cenário mundial.

“If we have been able to see further, it is because we stand on the shoulders of those who have gone before us”

                                                                                                         Isaac Newton

 

Homens de Visão

A História da Cirurgia Craniofacial no Brasil também deve ser contada a partir de meados dos anos 60. Nesta época três destacados e eminentes professores de Cirurgia Plástica do nosso país, um do Rio de Janeiro (Prof. Ivo Pitanguy) e dois de São Paulo (Prof. Paulo de Castro Correia e Prof. Victor Spina) puderam vislumbrar a importância que este ramo da especialidade começava a ter no cenário mundial. Como já relatado no início desta publicação, os trabalhos de John Marquis Converse nos Estados Unidos e de Harold Gillies na Europa tiveram repercussão mundial no final dos anos 50.

O Prof. Ivo Pitanguy foi “Visiting Fellow” dos Serviços de Cirurgia Plástica do Dr. John Marquis Converse em Nova York ; do Dr. Harold Gillies no Park Prewet Hospital e no Basingstoke and Rooksdownhouse Hospital em Londres; de Sir Archibald McIndoe no Queen Victoria Hospital também em Londres; e do Dr. Paul Tessier no Hôpital Foche em Ville de Suresnes-França.

 

Em 1960 a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, através de sua Escola Médica de Pós-Graduação, criou a cadeira de Cirurgia Plástica da PUC-Rio, tendo como Professor-Titular o Dr. Ivo Pitanguy. Iniciou-se neste mesmo ano o Curso de Pós-Graduação Médica em Cirurgia Plástica e o local escolhido para o desenvolvimento das atividades práticas (cirúrgicas) foi a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro onde Dr. Pitanguy já havia fundado a primeira Clínica de Cirurgia de Mão em 1949, na 19ª Enfermaria, e o Serviço de Cirurgia Plástica na 38ª Enfermaria em 1954. Posteriormente organizou e chefiou o Serviço de Queimados por ocasião do incêndio do Gran Circo Norte-Americano em Niterói no ano de 1961. Além da Cirurgia Estética portanto, o Prof. Pitanguy dedicou-se no início de sua carreira basicamente a duas áreas da Cirurgia Plástica Reconstrutiva: Mão e Queimados. A Clínica Ivo Pitanguy foi fundada no ano de 1963.

Edgard Alves Costa era um jovem cirurgião-dentista que se destacava na cidade de Niterói. Ele foi referido e apresentado ao Prof. Ivo Pitanguy pelo Dr. Ronaldo Pontes e desde então o Prof. Edgard Costa esteve sempre trabalhando como consultor em Cirurgia Craniofacial da Clínica Ivo Pitanguy, numa relação profissional que está prestes a completar 40 anos. A exemplo do que ocorreu com  Kazanjian e Converse; Costa e Pitanguy puderam construir um extraordinário trabalho, principalmente no campo da traumatologia da face, que rapidamente se popularizou.

As atividades de Cirurgia Plástica na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) iniciaram-se no Hospital de Clínicas no ano de 1944. Somente em 1953, entretanto, foi criada a Disciplina de Cirurgia Plástica e Queimaduras, e o Prof. Victor Spina foi convidado a chefiá-la com o respectivo Serviço de Cirurgia Plástica no Hospital das Clínicas. Em 1956 a Disciplina foi reconhecida pela Educational Foundation of the American Society of Plastic and Reconstructive Surgery e a estrutura do Corpo Docente foi ampliando, integrando-se vários assistentes.

O Prof. Victor Spina chegou a Prof. Adjunto do Departamento de Cirurgia no ano de 1972 e manteve-se na chefia até 1978. Durante a década de 60, em função dos intercâmbios com outras Disciplinas e Departamentos da Faculdade de Medicina, formaram-se em paralelo ao núcleo central da Cirurgia Plástica, outros grupos de atuação sob a responsabilidade de médicos assistentes da Disciplina. Dentre estes havia o Serviço de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial, constituído por cirurgiões-dentistas.

 

Prof. Victor Spina

O Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital de Clínicas da FMUSP sempre se destacou no atendimento a pacientes portadores de deformidades congênitas. Esta sempre foi uma área de grande interesse para o Prof. Victor Spina na Cirurgia Plástica e que inspirou muitos de seus  discípulos, dentre os quais destacava-se um jovem interessado em cirurgia reconstrutiva do esqueleto crânio-facial: o Dr. Jorge Miguel Psillakis.

No ano de 1977 o grupo central da disciplina de Cirurgia Plástica e Queimaduras do Hospital de Clínicas sob a chefia do Prof Victor Spina contava com o Dr. Diógenes Laércio Rocha que iniciou a organização do Setor de Cirurgia Craniofacial, enquanto o Prof. Jorge Psillakis desenvolveria seu pioneirismo na especialidade dentro do Serviço que fundou na Beneficência Portuguesa de São Paulo.

O Prof. Paulo de Castro Correia foi aos Estados Unidos no ano de 1955, pouco depois do concurso de Livre-Docência que prestara na Universidade de São Paulo, e lá presenciou a inauguração por John Marquis Converse de um Serviço denominado “Instituto para Reabilitação dos Deformados Faciais”.  Esta foi a inspiração para criar um projeto semelhante em São Paulo.

Prof. Paulo de Castro Correa

Quando regressou dos Estados Unidos em 1966, o Prof. Paulo Correa lançou a idéia da criação da Associação Paulista para Correção dos Defeitos da Face, após o que iniciou um projeto de arrecadação de fundos para a criação de um Hospital de referência. Desde a obtenção do terreno cedido pela Cruz Vermelha Brasileira até a inauguração do Hospital dos Defeitos da Face no dia 13 de dezembro de 1966, cerca de sete anos se passaram.

Tendo sido criado com o espírito básico do atendimento em caráter multidisciplinar aos seus pacientes, o Hospital dos Defeitos da Face incorporou à sua equipe de atendimento cirurgiões-dentistas indicados pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.

Muitos dos ex-alunos do Prof. Paulo de Castro Correa se interessaram naturalmente, sob sua forte influência, pela Cirurgia Craniofacial, participando ativamente da História da especialidade no país. Dentre eles merece destaque por seu pioneirismo o Dr. José Marcos Melega. 

 

Os Pioneiros 

“A Ciência, através dos tempos, é feita aos saltos, mas a partir de conhecimentos armazenados. A história da Cirurgia Craniofacial não foi diferente. A escada estendeu-se degrau por degrau desde a Cirurgia Bucomaxilofacial dos dentistas até a Cirurgia Plástica dos médicos. Aí incorporou conhecimentos da Cirurgia Oncológica de Cabeça e Pescoço, da Otorrinolaringologia, da Oftalmologia, da Traumato-Ortopedia, da Neurocirurgia…”

Silvio Zanini, CD, MD

Alguns pólos distintos foram se criando e deram origem ao desenvolvimento da especialidade em nosso País. Estes pólos tiveram como centro homens que merecem ser citados como os pioneiros da Cirurgia Craniofacial no Brasil.

Oswaldo de Castro era filho de dentista e freqüentava desde criança o consultório do pai. Formado inicialmente em Odontologia, foi discípulo de Laet de Toledo César, um dos pioneiros da Cirurgia Buco-Maxilo-Facial em nosso país. Dr. Laet além de odontólogo era médico e cirurgião de grande habilidade. Posteriormente Dr. Oswaldo foi trabalhar com o ilustre cirurgião plástico, Dr. Roberto Farina e resolveu então estudar Medicina. Formou-se e destacou-se nos anos 60, principalmente no desenvolvimento da Cirurgia Ortognática, tendo desenvolvido técnica cirúrgica para o prognatismo mandibular que leva seu nome e merece citações em todo o mundo.

 Dr. Oswaldo de Castro

Dr. Oswaldo de Castro é o decano da especialidade em nosso país e permanece em plena atividade  profissional na cidade de São Paulo, ao lado de seu filho, o cirurgião plástico André Parreira de Castro.

Jorge Miguel Psillakis, nasceu em 24 de dezembro de 1934. No ano de 1966, com apenas 31 anos de idade, ao participar de um concurso para Professor Assistente do Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo, um paciente com grave deformidade de face foi apresentado ao Dr. Psillakis na prova prática, para ser avaliado. A banca examinadora era constituída por eminentes Professores de Cirurgia nas áreas de Geral, Tórax e Vascular.

Dr. Jorge Miguel Psillakis

Na realidade tratava-se de um paciente com fissura rara craniofacial, cursando com hiperteleorbitismo e traços que sugeriam microssomia hemicraniofacial. O paciente havia sido encaminhado ao Hospital de Clínicas da USP pelo estado de Goiás e era um verdadeiro monstro em sua aparência. O exame clínico foi descrito com minúcias e fêz referencia às deformidades orbitais e do globo ocular; ao aumento da distância orbital (hipertelorismo); à ausência de fossa nasal e do filtrum labial; à duplicação da ponta nasal; ao palato ogival e à deformidade dos maxilares. Os exames complementares (laboratoriais e radiológicos) também foram apresentados com detalhes.

Ao ser questionado sobre o tratamento, Dr. Psillakis foi obrigado a afirmar que não havia nenhum tratamento até aquele momento que pudesse trazer resultado satisfatório, mesmo quando insistentemente questionado pela banca de ilustres cirurgiões. Este fato foi marcante em sua vida profissional e êle, na época, imaginou que um dia a Medicina poderia ajudar pacientes com anomalias congênitas tão severas quanto aquela. A única coisa que o Dr. Psillakis não imaginou, é que êle teria que esperar muito pouco tempo para ter certeza disso.

No ano seguinte, em 1967, o mundo tomou conhecimento da apresentação fantástica de Paul Tessier durante o Fourth Annual Congress of the International Confederation of Plastic Surgeons, em Roma. Neste mesmo ano publicações do Dr. Tessier chegaram às mãos do Dr. Psillakis no volume 12 da revista Annales de Chirurgie Plastique. Pela primeira vez na história da Medicina equipes de Cirurgia Plástica (Dr. Paul Tessier) e de Neurocirurgia (Dr. Gerard Guiot), se reuniam para abordagem via intra-craniana de deformidades congênitas craniofaciais como o hiperteleorbitismo.

“Foi como uma luz num túnel escuro” sentiu com emoção Dr. Psillakis, recordando-se imediatamente de seu paciente na prova do ano anterior, e que tivera alta, retornando para o interior do estado de Goiás. Dr. Jorge Psillakis encaminhou cópia do trabalho a seu colega de turma na faculdade, especialista em Neurocirurgia, Dr. Walter Carlos Pereira, e que ficou muito interessado no desenvolvimento deste trabalho. As primeiras cirurgias foram em pacientes portadores de meningoencefalocele nasoetmoidal. Tiveram a oportunidade de operar juntos cinco casos, o que lhes deu uma boa visão do tratamento combinado da área nasoetmoidal, da anatomia e do entrosamento entre as equipes cirúrgicas.

Durante dois anos (68 e 69), Dr. Psillakis teve a oportunidade de operar pela técnica de Converse vários pacientes com a distância inter-orbital aumentada (telecanto), complementando a experiência que seria necessária para a cirurgia intracraniana do hiperteleorbitismo. Treinou a técnica intracraniana várias vezes no laboratório de Anatomia, em cadáveres frescos, para conhecer todos os pormenores até que estivesse pronto para realizá-la no primeiro paciente, o que foi efetivamente feito no ano de 1970, com sucesso.

Faz parte de um relato emocionado do Dr. Psillakis no prefácio de seu livro “Cirurgia Craniomaxilofacial: Osteotomia Estéticas da Face”: “Lembro como fiquei maravilhado a primeira vez que mobilizei as órbitas por via craniana em cadáver. Minha admiração por Paul Tessier foi enorme; pela lógica do seu raciocínio ao executar a operação que, de certa maneira, é tão simples, um verdadeiro Ovo de Colombo”

Consta que esta foi a primeira cirurgia realizada na América Latina para tratamento do hiperteleorbitismo. Além dos relatos de Tessier pioneiros no ano de 1964, só haviam descrições deste tipo de cirurgia por Converse nos Estados Unidos e David Mathews na Inglaterra. Esta cirurgia teria também aumentado a confiança do grupo cirúrgico que então operou diversos pacientes com fissuras craniofaciais, disostoses craniofaciais (portadores das Síndromes de Crouzon e Apert), além de seqüelas de fraturas craniofaciais e osteotomias maxilomandibulares para as deformidades dentofaciais.

Em 1972 o Dr. Psillakis defendeu tese de Livre-Docência sobre o tema em questão – Cirurgia Craniofacial – na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Em 1973 foi então convidado pelo Sr. Antonio Ermírio de Morais, para montar um Serviço de Cirurgia Plástica no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, e criou o Instituto de Recuperação Humana, entidade de caráter multidisciplinar que congregava várias especialidades como: Cirurgia Plástica; Neurocirurgia; Oftalmologia; Otorrinolaringologia;  Genética Médica; Ortodontia e Ortopedia Maxilar; Odontologia Clínica; Fonoaudiologia; Psicologia e Serviço Social.

A partir de várias publicações científicas, o Serviço do Prof. Psillakis foi se tornando conhecido internacionalmente. O avanço craniofacial em monobloco nos pacientes com Síndrome de Crouzon foi apresentado em 1976 no Congresso Ibero-Latino-Americano em Quito (Equador). Esta constituiu-se em  importante  modificação técnica idealizada quase que concomitantemente por Fernando Ortiz-Monastério que a popularizou. Da mesma forma o Dr. Psillakis começou a desenvolver importante trabalho de enxertia óssea de calota craniana com a técnica de bipartição para reconstrução craniofacial, e publicou no Plastic and Reconstructive Surgery no ano de 1979. Publicação européia na mesma época, versando sobre o mesmo tema, seria realizada por Paul Tessier.

Como se sabe, e isto ocorre em diferentes profissões, muitas técnicas são desenvolvidas concomitantemente em diferentes partes do mundo, com resultados e conclusões semelhantes, ficando com o mérito da descoberta aquele que primeiro publica e o faz em revista indexada com grande penetração científica. Este fato ocorreu com freqüência neste período de enorme desenvolvimento da cirurgia craniomaxilofacial.

Vários trabalhos nos anos 80 seriam realizados por Dr. Psillakis e seus residentes como os de retalhos vascularizados de crânio e gálea para reconstrução craniofacial (mereceu prêmio em Congresso Internacional de Cirurgia Plástica); modificações técnicas de osteotomias maxilares (com auto-estabilidade, para Síndrome de Binder); osteotomia naso-frontal para meningoencefalocele nasoetmoidal; modificação da técnica de Tessier para o hiperteleorbitismo (com manutenção de um T central) e os trabalhos pioneiros de cirurgia estética craniofacial como a ritidoplastia subperiosteal.

Edgard Alves Costa, nasceu em 21 de fevereiro de 1934 na cidade de Niterói (RJ) e formou-se em Odontologia pela Faculdade de Farmácia e Odontologia do Rio de Janeiro, situada em Niterói, no ano de 1959, tendo iniciado sua vida profissional com atividades em Cirurgia Oral Menor e Prótese. Logo após sua formatura, Dr. Edgard iniciou atividade acadêmica como Professor de Cirurgia nesta mesma Escola.

Apesar de seu enorme interesse pela Cirurgia, os conhecimentos do Dr. Edgard eram muito limitados, já que o ensino nesta área específica era muito deficiente. Livros-texto como os de Dingman & Natvig; Kazanjian & Converse; e Thoma, K.; foram se constituindo na única forma de se adquirir conhecimentos avançados de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial, que começavam a se consolidar nos Estados Unidos e em alguns países da Europa como França, Inglaterra e Alemanha.

No ano de 1961 Dr. Edgard conheceria num momento de lazer um jovem médico, Ronaldo Pontes, que também residia em Niterói, e fazia treinamento em Cirurgia Plástica com o Prof. Ivo Pitanguy. Tornaram-se amigos, tinham praticamente a mesma idade, e Dr. Ronaldo convidou Dr. Edgard a assistir uma cirurgia que iria realizar na semana seguinte no Hospital Universitário Antonio Pedro. Dr. Edgard aceitou o convite, participou desta cirurgia como auxiliar do Dr. Ronaldo, e posteriormente passou a fazê-lo de forma rotineira.

Juntos Dr. Edgard e Dr. Ronaldo começaram a operar também pacientes com fraturas de face que começaram a surgir, e neste particular Dr. Edgard pôde começar a exibir todo o seu talento para a cirurgia. O primeiro caso, lembra Dr. Edgard, foi o de um paciente com fratura de mandíbula vítima de atropelamento, e os ensinamentos dos livros foram de enorme valia na decisão sobre a estratégia cirúrgica. O bloqueio inter-maxilar foi realizado com odontossíntese a Kazanjian, e a osteossíntese com fio de aço após perfuração com máquina manual e broca fina.

Dr. Edgard teria oportunidade também de participar com Dr. Ronaldo Pontes no atendimento às centenas de pacientes vítimas do incêndio no Gran Circus Norte-Americano no dia 17 de dezembro de 1961, em Niterói. Este atendimento que envolveu inúmeros procedimentos de enxertias de pele e curativos sob anestesia geral aconteceram no Hospital Universitário Antonio Pedro e no Hospital Infantil Getúlio Vargas. A paixão pela cirurgia reparadora crescia cada vez mais.

Através do Dr. Ronaldo Pontes, Dr. Edgard conheceria o Prof. Ivo Pitanguy pessoalmente durante palestra do ilustre cirurgião plástico sobre o tema Fissuras Lábio-Palatais no ano seguinte. Pouco tempo depois, neste mesmo ano de 1962, Dr. Edgard receberia um convite do Prof. Ivo Pitanguy para conhecer o Serviço de Cirurgia Plástica da Santa Casa de Misericórdia, na 38ª. Enfermaria, que se encontrava em plena atividade há cerca de sete anos, e aprópria Clínica Ivo Pitanguy que seria inaugurada no ano seguinte (1963).

Os primeiros pacientes do Prof. Pitanguy operados pelo Dr. Edgard foram portadores de prognatismo mandibular e de fraturas de face. A partir deste momento Dr. Edgard veria rotineiramente pacientes com deformidades congênitas e adquiridas do esqueleto facial por indicação do Prof. Pitanguy  que se impressionou com a habilidade cirúrgica daquele jovem cirurgião-dentista e o estimulou a fazer Medicina.

Edgard Costa que já havia sido o primeiro lugar no vestibular de Odontologia, passou em quinto lugar no vestibular de Medicina para a Universidade Gama Filho. Esta seria a primeira turma de Medicina desta Universidade, turma esta que viria a se formar no ano de 1969. Edgard Costa pediu, entretanto, transferência para a Universidade Federal Fluminense, o que o obrigou a cumprir sete anos de graduação e formar-se no ano de 1970 por aquela faculdade. Durante este período, Dr. Edgard Costa via pacientes e operava no final da tarde ou aos sábados (nos quais trabalhava o dia inteiro).

Ele dominou com ciência e criatividade a área de fraturas de face e desenvolveu inúmeras técnicas em traumatologia. Seu conhecimento sobre fisiopatologia das fraturas de face sempre surpreendeu mesmo aos cirurgiões mais experientes, obrigando-os a rever conceitos de tratamento. Desde 1962, por exemplo, com base nos ensinamentos de Dingman e Natvig no famoso livro “Surgery of Facial Fractures”, Edgard Costa desenvolveu com habilidade ímpar a técnica de redução aberta das fraturas condílicas e osteossíntese a fio de aço. Foi também no início dos anos 60 que ele desenvolveu capacete de fixação esquelética para imobilização de fraturas no terço médio da face, modificando o descrito por Crawford e que evoluiria para aquele que viria a ser denominado Capacete de Costa-Pitanguy em meados dos anos 70.

Dr. Edgard Costa fundou uma escola no Rio de Janeiro, dentro do Serviço de Cirurgia Crânio-Facial que foi criado na Beneficência Portuguesa de Niterói. O convite veio no ano de 1969, as obras no hospital se estenderam por mais de três anos, e o Serviço foi iniciado efetivamente no início do ano de 1973. Lá o Dr. Edgard vem formando cirurgiões na especialidade há trinta anos, com o mérito de ser o centro de treinamento em atividade há mais tempo no nosso país, sem qualquer interrupção.

Dr. Edgard Alves Costa

Silvio Antonio Zanini, nasceu no dia 10 de fevereiro de 1938 e formou-se em Odontologia pela PUC-RS no ano de 1962. Tendo sido o primeiro colocado na cadeira de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial, foi indicado para fazer estágio neste Setor do Hospital de Pronto-Socorro Municipal de Porto Alegre, tendo posteriormente sido aprovado em concurso para fazer parte do quadro deste Hospital.

Dr. Silvio Antonio Zanini

Posteriormente o Prof. Zanini graduou-se em Medicina no ano de 1970 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo se especializado em Cirurgia Plástica no Serviço do Prof. Antonio Estima. Anteriormente Dr. Zanini fez estágio em várias especialidades como Otorrinolaringologia, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Terapia Intensiva e Neurocirurgia. O interesse pela Cirurgia Craniofacial veio naturalmente com a relação profissional que passou a ter com especialistas em Traumatologia e Neurocirurgia. Foi professor do Curso de Mestrado em Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial da PUC-RS;  Fundador e Responsável pelo Serviço de Cirurgia Craniofacial do Hospital de Neurocirurgia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre; e Diretor do Instituto de Cirurgia Craniofacial de Porto Alegre.

Em 1973 Dr. Zanini possuía dois pacientes, um com Síndrome de Crouzon e outro com hiperteleorbitismo, que o fizeram procurar o Dr. Jorge Psillakis em São Paulo. Juntos operaram  os casos e com Dr Psillakis aprendeu as técnicas intra-cranianas de Cirurgia Craniofacial. Em contrapartida Dr Psillakis relata ter aprendido muito com Dr. Zanini as técnicas de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial.

Foi o Dr. Zanini também que apresentou Dr. Psillakis ao Dr. Edgard Costa (residente no Rio de Janeiro e grande nome da traumatologia de face na época), sendo, por este motivo, considerado como o grande catalisador do processo que iniciou o desenvolvimento da Cirurgia Craniofacial em nosso país através de reuniões científicas que se iniciaram em 1974.

Em agosto de 1989, convidado pela Direção de um dos mais importantes centros de tratamento de fissurados, o Centrinho de Bauru, Dr Zanini planejou e criou a Unidade de Cirurgia Craniofacial. Naquela oportunidade o Hospital de Lesões Lábio-Palatais transformou-se em um Centro (Hospital de Reabilitação) de Anomalias Craniofaciais. As atividades desenvolvidas pela equipe de Cirurgia Craniofacial foram organizadas em módulos, com duração de uma semana, a avaliação é contínua e ao fim de cada módulo faz-se uma análise global.

Sobre êle, Psillakis escreveu: “Silvio Zanini à semelhança de Paul Tessier, se entregou de corpo, mente e alma a essa especialidade tornando-a a paixão da sua vida profissional. Com sua criatividade e dedicação contribuiu com técnicas, que não só simplificaram, mas também melhoraram os resultados finais dos pacientes. Seu entusiasmo influenciou a formação de muitos, hoje líderes em seus estados; e ainda continua a contagiar muitos médicos a seguirem esta difícil especialidade. É um líder entre os jovens aos quais sempre estimula.”         

Melchiades Cardoso de Oliveira nasceu na cidade de Cedral (SP), no dia 22 de março de 1926. Formado pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1952, fez residência em Cirurgia Geral no Baltimore City Hospital, em Maryland (EUA) nos anos de 1953 e 1954.

Retornando ao Brasil estabeleceu-se em São José do Rio Preto (SP), trabalhando na Santa Casa de Misericórdia como Cirurgião Geral. Logo em seguida começou a exercer a Cirurgia Plástica (1956), ocupando o cargo de Chefe do Serviço do qual foi o fundador. Criou também a Clínica de Cirurgia Plástica de São José do Rio Preto, no centro da cidade, atendendo pacientes de toda a região, desenvolvendo um serviço que atendia grande número de pacientes portadores de fraturas de face e deformidades congênitas como o prognatismo.

Deve-se ao grande entusiasmo do Dr. Melchiades demonstrada na organização de reuniões científicas sobre o tema, e em vários trabalhos publicados (em especial sobre traumatologia de face), uma grande contribuição para o desenvolvimento da especialidade em nosso país. Dr. Melchiades participou ativamente desde as primeiras reuniões sobre Cirurgia Crânio-Facial, organizadas por um pequeno e seleto número de cirurgiões da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica no início dos anos 70.

Dr. Melchiades foi Tesoureiro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e posteriormente seu ilustre Presidente no biênio 83/84, além do que foi Membro Fundador de Capítulos como o de Queimados e de Cirurgia Craniofacial, e pioneiro da Cirurgia Plástica no interior paulista dedicando 40 anos de sua vida profissional à medicina de São José do Rio Preto, onde veio a falecer no mês de junho de 1997.

José Marcos Melega formou-se em Medicina pela Escola Paulista de Medicina, tendo realizado sua Residência em Cirurgia Geral no Hospital Santa Cruz com seu ilustre pai – o Prof. Henrique Mélega. Segundo o cirurgião plástico Raul Loeb, “o Dr. Henrique Mélega ajudava bastante os colegas mais jovens para que se integrassem no bom conhecimento da cirurgia geral…”

Posteriormente Dr. José Melega fez sua Residência em Cirurgia Plástica no Hospital dos Defeitos da Face, tendo sido um dos primeiros residentes do Prof. Paulo de Castro Correa. Ainda em sua formação profissional a nível de pó-graduação, Dr. José Marcos Melega foi Visiting Fellow com os professores John Marquis Converse (USA) e Ivo Pitanguy (RJ).

A partir de 1970 o Dr. José Marcos Melega reestruturou o Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital Santa Cruz e teve a visão de organizar equipe multidisciplinar com especialistas na área de Odontologia (Dr. Ralf Rode, Dra. Lucy Dalva Lopes) e, posteriormente, também na área de Fonoaudiologia com a Fga. Lídia D’Agostino.

Por volta do ano de 1976 Dr. Melega aproximou-se do Dr. Jorge Psillakis em Reuniões Científicas que deram grande impulso à especialidade no nosso país. Estas reuniões tornaram-se rotineiras a partir do ano de 1974 e a partir daí iniciou-se uma etapa de grande desenvolvimento que perdurou até o ano de  1986, e seu fórum inicial foram os Congressos Brasileiros de Cirurgia Plástica e outras Jornadas da especialidade organizadas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Segundo o testemunho do Dr. Zanini, “um clima de amizade e respeito imperava entre todos, apesar das discussões muito acirradas sobre as técnicas apresentadas. As críticas eram contundentes e feitas com franqueza; todas eram naturalmente construtivas, devido ao fato de o objetivo maior ser a evolução da especialidade …”

Estas acaloradas (porém respeitosas) reuniões científicas contavam desde o seu início com a presença de Oswaldo de Castro, Jorge Psillakis, Edgard Costa, Silvio Zanini, José Marcos Melega, Melchiades Cardoso de Oliveira, entre outros. Vários residentes destes ilustres cirurgiões, entusiasmados com a especialidade, aprenderam nestas reuniões a se encontrar para apresentar a experiência de seus respectivos Serviços, e discutir novas técnicas cirúrgicas e resultados de tratamentos. Outros ainda, viriam de sua formação paralela para contribuir enormemente com a especialidade.

Alberto Tadeu Luiz, Diógenes Rocha, Fausto Viterbo, Gilvani Azor Cruz, José Carlos Ferreira, Luiz Carlos Manganello de Souza, Luiz Francisco da Fontoura, Mariângela Santiago, Nivaldo Alonso, Paulo Mateó Santana, Paulo Hvenegaard, Paulo Roberto Mello Gomes, Ricardo Lopes da Cruz, Roberto Godoy (neurocirurgião), Sérgio Moreira da Costa e Vera Cardim, foram alguns daqueles que, durante os anos 80, estiveram presentes nestas reuniões, de onde nasceu o Capítulo de Cirurgia Craniofacial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Cássio Menezes Raposo do Amaral, fez sua especialização em Cirurgia Plástica na França no início dos anos 70. Retornou ao Brasil em 1975 e desde então iniciou trabalho de uma forma multidisciplinar no atendimento ao paciente deformado de face, na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Ainda em 1975 houve a visita do Dr. Joseph McCarthy, atual Chefe do Institute of reconstructive Plastic Surgery of the New York University Medica Center, quando foi realizado o I Curso Internacional de Cirurgia Crânio-Facial da UNICAMP, com a presença de mais de uma centena de cirurgiões. Neste I Curso foram programadas as primeiras cirurgias craniofaciais realizadas em Campinas (SP), que contaram com a presença também de professores do Departamento de Neurocirurgia da Universidade de São Paulo.

Dr. Cássio Menezes Raposo do Amaral

No ano seguinte, 1976, Dr. Cássio já organizara melhor equipe multi e inter-disciplinar para o tratamento do deformado crânio-facial e iniciou procedimentos cirúrgicos utilizando a via intra-craniana. Neste ano foi organizado o II Curso que já contou com a presença de duzentos e cinqüenta profissionais. Os convidados estrangeiros foram o cirurgião plástico Donald WoodSmith e o ortodontista Peter Coccaro, ambos do Institute of Reconstructive Plastic Surgery of the New York Medical Center; além de Kitaro Ohmori do Metropolitan Police Medical Center, do Japão. Neste curso, além da parte teórica, foram realizadas quatro grandes cirurgias, transmitidas diretamente para o auditório.

O terceiro Curso aconteceu no ano de 1978 e o convidado foi Henry Kawamoto, da University of Califórnia at Los Angeles (UCLA) que realizou conferencias, consulta a pacientes selecionados e cirurgias

A criação da Sociedade Brasileira de Pesquisa e Assistência para Reabilitação Crânio-Facial (SOBRAPAR) era um sonho alimentado por Dr. Cássio Amaral desde o seu retorno ao Brasil. Ele já realizava pesquisas clínicas e experimentais em associação com outros Departamentos de várias Instituições no Brasil e no exterior e sabia das enormes dificuldades existentes no país. Foi assim que em 1979 o Dr. Cássio concretizou este projeto e criou a SOBRAPAR, com fins de assistência, pesquisa e ensino, que foi inaugurada com a presença do Dr. John Marquis Converse (foto abaixo), na época Chefe do Institute of Reconstructive Plastic Surgery do New York University Medical Center e Presidente da Society for the Rehabilitation of Facially Desfigured, considerado por muitos expoente máximo da Cirurgia Plástica Norte-Americana.

Neste ano (1979) a IV Jornada contou mais uma vez com a presença do Dr. Kawamoto, e também do Dr. Anthony Wolfe da University of Miami. O Prof. Converse, em cerimônia ocorrida no dia 01 de março de 1979, cortou a faixa simbólica que abriu as portas da SOBRAPAR a um importante trabalho que se iniciava.

Estes simpósios repetiram-se periodicamente na década de 80 e trouxeram ao Brasil os mais destacados especialistas em Cirurgia Craniofacial do mundo. A maior integração internacional foi realizada, portanto, com centros de Cirurgia Craniofacial em Paris, Los Angeles, Miami e Nova Iorque. Sem dúvida foi o Dr. Cássio que com estas iniciativas permitiu a possibilidade de que professores e residentes do Brasil tivessem um estreito intercâmbio com grandes centros mundiais de Cirurgia Craniofacial do exterior.

A V Jornada no ano de 1980 foi histórica, pois ocorreu com a presença de Paul Tessier (na sua terceira vinda ao Brasil), e mais uma vez dos Drs. Kawamoto e Wolfe. Nesta oportunidade foram examinados trinta e oito pacientes, ministradas onze conferências e operados oito pacientes em cirurgias com duração média de sete horas cada uma. A partir da VI Jornada, no ano de 1981, o encontro científico, que adquiriu enorme vulto no final dos anos 70, passou a denominar-se Simpósio Internacional de Cirurgia Plástica, e nesta oportunidade foram examinados cinqüenta e dois pacientes, ministradas vinte conferências e operados treze pacientes. Em 1983, no VII Simpósio, foram examinados sessenta e cinco pacientes, ministradas dezesseis conferências e operados seis pacientes.

Para que a SOBRAPAR pudesse incluir um Centro Hospitalar autônomo, foi iniciada uma verdadeira peregrinação por fundações e instituições nacionais e estrangeiras à procura de auxílio, o que foi finalmente conseguido por intermédio da Lateinamerika Zentrum, sediada em Bonn (Alemanha Ocidental), cujo presidente, Sr. Hermann Goergen, era o coordenador dos projetos de cooperação para os países da América Latina, e sensibilizou-se com a proposta apresentada pelo Dr. Cássio.

O local escolhido foi próximo ao Campus da UNICAMP, e com a ajuda do sr Abraham Kasinski, Diretor-Presidente do grupo COFAP, e Presidente de Honra da SOBRAPAR, foi adquirida uma ampla área para a construção do Centro de Cirurgia Plástica Craniofacial nos limites da Cidade Universitária Zeferino Vaz. A obra iniciou-se em 1988, teve seu ambulatório inaugurado em fevereiro de 1990 e finalmente, no dia 20 de fevereiro de 1991, foi realizada a primeira cirurgia no hospital da SOBRAPAR que foi denominado Hospital de Cirurgia Plástica Craniofacial.

 

A SOBRAPAR, que foi construída em um terreno de sete mil metros quadrados constitui-se em um dos maiores pólos de desenvolvimento da especialidade em nosso país, incluindo setores de Cirurgia Plástica, Ortodontia, Psicologia, Fonoaudiologia, Informática, Neurologia, Genética, Pediatria e Prótese Buço-Maxilo-Facial, e passando a ser o maior projeto da Lateinamerika Zentrum da Comunidade Econômica Européia na América do Sul.

O Capítulo de Cirurgia Craniomaxilofacial da SBCP

Foi no ano de 1977, durante o Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica que acontecia no Rio de Janeiro, que alguns de seus membros, interessados na Cirurgia e Traumatologia Maxilofacial, sentiram a necessidade de fundar um Capítulo de Cirurgia Craniofacial dentro da Sociedade. Naquela oportunidade o Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica era o Dr. Raul Couto Sucena, que participou pessoalmente da reunião de fundação do Capítulo.

O indicado inicialmente para Regente do Capítulo de Cirurgia Craniofacial foi o Dr. Jorge Miguel Psillakis. Os demais participantes desta histórica reunião foram, por ordem alfabética: Dr. Edgard Costa (RJ), Dr. José Badim (RJ), Dr. José Marcos Melega (SP), Dr. Melchiades Cardoso de Oliveira (S.J. Rio Preto-SP), Dr. Oswaldo de Castro (SP), Dr. Silvio Zanini (RS) e Dr. Walmor Feijó (SP).

Na ata desta reunião, Dr. Jorge Psillakis relatou ter apresentado ao Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica um ante-projeto do Regulamento para o funcionamento do Capítulo, de acordo com os Estatutos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Uma preocupação inicial era a de possibilitar a médicos que faziam Cirurgia Bucomaxilofacial e não se dedicavam à Cirurgia Plástica, poderem ser filiados à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica como sócios para que o Capítulo pudesse ter forte impulso inicial.

Na realidade esta preocupação envolvia também os especialistas em Neurocirurgia que desde o início da década de 70 participavam de forma ativa deste tipo de cirurgia. Dr. Sucena propôs que todos estes médicos entrassem como “Sócios Afins” da Sociedade, dando direito a eles de serem membros do Capítulo e, inclusive, de serem eleitos para sua Diretoria, numa modificação prevista nos Estatutos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

A idéia foi aceita por unanimidade e aprovada, ficando o Dr. Jorge Psillakis responsável por apresentar no Congresso do ano seguinte (1978, São Paulo), o regulamento definitivo do Capítulo, com uma relação de “Sócios Fundadores” e de “Sócios Ativos”. Ao mesmo tempo foi sugerido pelo Presidente da Sociedade que no Congresso de 1978 fôsse realizada uma sessão de Cirurgia Craniomaxilofacial e um Curso à semelhança do que era feito rotineiramente pelos demais Capítulos.

No ano seguinte o Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica era o Dr. Ricardo Baroudi, e o Dr. Jorge Psillakis encaminhou a relação de membros fundadores e membros ativos conforme havia sido  determinado. A lista referente aos  Membros Fundadores foi entregue com os seguintes nomes:

  1. Dr. Jorge Miguel Psillakis (SP)
  2. Silvio Antonio Zanini (RS)
  3. Edgard Alves Costa (RJ)
  4. Melchiades Cardoso de Oliveira (SP)
  5. Walmor Feijó (SP)
  6. José Marcos Melega (SP)
  7. Oswaldo de Castro (SP)

Durante o Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica de 1978, no Hilton Hotel de São Paulo, houve uma importante Reunião do Capítulo de Cirurgia Craniomaxilofacial. Nesta Reunião estavam presentes todos os membros fundadores do Capítulo e também os Drs. Gilvani Azor de Oliveira Cruz (PR) e José Carlos Rezende Alves (MG). Dr. Jorge Psillakis apresentou aos membros do Capítulo o regulamento de funcionamento do mesmo, após sua aprovação pelo Conselho da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Nesta Reunião também foram listados nomes para Membros Ativos do Capítulo com colegas de diferentes estados. Esta lista foi assim composta:

  1. Dr. Carlos Homero Gomes Cabral dos Anjos (PE)
  2. Dr. Gilvani Azor de Oliveira e Cruz (PR)
  3. Dr. Marcelo Miranda (PE)
  4. Dr. Waldemar Mano Sanches (S.J.Rio Preto-SP)
  5. Dr. Cássio Menezes Raposo do Amaral (Campinas-SP)
  6. Dr. José Badim (RJ)
  7. Dr. José Carlos Daher (DF)
  8. Dr. José Guilherme Carvalhal França (BA)
  9. Dr. Francisco das Chagas Ley (CE)
  10. Dr. Edson Dias Tannus (GO)
  11. Dr. José Carlos Rezende Alves (MG)

Neste mesmo Congresso (1978, SP) um dos convidados estrangeiros era  o experiente e já internacionalmente famoso Dr. Linton Whitaker. Uma das atividades científicas pré-Congresso foi efetivamente uma Mesa-Redonda versando sobre Fraturas do Terço Médio da Face na qual participaram além do Dr. Whitaker os Drs. Edgard Costa e José Badim do Rio de Janeiro. A performance de Edgard Costa naquela oportunidade foi memorável e seus resultados impressionaram a todos os presentes. Um dos destaques de sua apresentação foi a utilização do capacete de fixação esquelética Costa-Pitanguy, apresentado como um recurso de extrema valia para fixação de fraturas múltiplas do esqueleto fixo da face, e prevenção de seqüelas como retrusão e encurtamento do terço médio da face.

Em 1978, como já dissemos, Dr. Ricardo Baroudi era o Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e o Dr. Ivo Pitanguy era o 1º. Vice-Presidente. Dr. Baroudi em carta datada de 12 de junho de 1978 escreveu ao Dr. Jorge Psillakis:

A presente tem por fim oficiar a vossa nomeação para o cargo de Presidente do Capítulo de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial desta Sociedade, juntamente com o vosso colega de trabalho, Dr. José Marcos Melega, durante o período de 1978-1980.

O vosso trabalho é do mais alto significado para esta Sociedade, face a importância que o vosso setor apresenta dentro da especialidade.

Contamos com o vosso elevado espírito de organização e trabalho para elevar ainda mais os objetivos da especialidade e da Sociedade no cenário nacional e internacional.

Queira receber os nossos melhores agradecimentos pela valiosa colaboração

Na mesma data Dr. Baroudi escreve outra carta aos Drs. José Marcos Melega e Jorge Miguel Psillakis dando-lhes as boas vindas ao grupo de trabalho que comporia e já convocando-os para reunião conjunta com todas as Comissões e Capítulos para estudo dos projetos a serem inseridos no programa de dois anos daquela gestão.

A reunião conjunta expressava a preocupação do Dr. Baroudi de realizar um “programa de integração científico-administrativa em todas as áreas” e aconteceria no dia 28 de julho de 1978. Os Capítulos já existentes na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, além do recém-criado de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial eram os seguintes (com seus respectivos Regentes):

  1. Capítulo de Queimaduras – Dr. Telmo Marques Weber
  2. Capítulo de Tumores – Dr. Benjamin Golcman e Dr. Raul Couto Sucena
  3. Capítulo de Cirurgia da Mão – Dr. José Francisco Wechsler
  4. Capítulo de Cirurgia Estética – Dr. Ruy Ribeiro Vianna

Nos regulamentos do Capítulo de Cirurgia Craniomaxilofacial havia no seu Capítulo I, artigo 1º., ítem d, a recomendação de “intensificar o relacionamento com especialidades médicas afins como Otorrinolaringologia, Oftalmologia, Neurocirurgia, Cirurgia de Cabeça e Pescoço e especialidades odontológicas afins (Ortodontia, Cirurgia Buco-Maxilo-Facial, etc..)”

Os Primeiros Cursos do Capítulo 

Outra preocupação da Regência do Capítulo foi o da realização de dois Cursos anuais, um em cada semestre, em diferentes estados do Brasil, para divulgação da especialidade. O primeiro Curso aconteceria ainda no segundo semestre do ano de 1978 e a cidade escolhida foi Niterói (RJ) sob a coordenação do Dr. Edgard Costa, eleito Secretário do Capítulo em sua primeira gestão. O segundo Curso aconteceu em 1979, na cidade de Fortaleza (CE), sob a coordenação do Dr. Germano Riquet, que nutria especial admiração por este grupo de médicos entusiasmados pela nova especialidade.

Os principais objetivos destas Jornadas eram:

1º.  Divulgar esta área da especialidade (Cirurgia Plástica) no meio médico

2º.  Intercâmbio de idéias com especialistas de vários centros

3º. Posicionar a especialidade junto às sociedades médicas, odontológicas e autoridades previdenciárias, principalmente em áreas em que havia litígio quanto à qualificação profissional (médico ou dentista) de quem atenderia no âmbito da especialidade.

O primeiro Curso organizado pelo Capítulo recebeu a denominação de 1º Simpósio Brasileiro de Cirurgia Crânio-maxilo-Facial, e aconteceu na cidade de Niterói-RJ nos dias 01 e 02 de dezembro do ano de 1978 sob a coordenação do Dr. Edgard Alves Costa. O convidado estrangeiro foi o cirurgião plástico argentino Fávio Sturla, um estudioso da fisiopatologia das fraturas de face.

O segundo Curso que recebeu a denominação de II Encontro Nacional de Especialistas em Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial foi realizado nos dias 17 e 18 de agosto de 1979.

Em ambos os Encontros foram realizadas reuniões para se discutir problemas da especialidade. Neste particular as decisões passavam invariavelmente pelos membros fundadores do Capítulo.

Desde aquela época imaginou-se a possibilidade de uma espécie de Curso Itinerante, abordando sempre princípios básicos de Cirurgia Craniomaxilofacial, com um Coordenador para cada Curso que fosse membro do Capítulo, e com programação relativamente padronizada. A idéia inicial era de Cursos de dois ou três dias com um mínimo de cinco aulas de traumatologia, duas de osteotomias faciais e duas de osteotomias cranio-faciais. Eventualmente poderia ser organizado Curso Prático.

Ao final da gestão dos Drs. Psillakis e Melega, o Regente seguinte do Capítulo seria o Dr. Silvio Zanini. Na carta manuscrita de passagem informal do cargo, Dr. Melega escreveria ao Dr. Zanini: “Tenho certeza que em suas mãos (o Capítulo) terá o desenvolvimento que esta nossa especialidade merece.”

Nos anos de 1980 e 1981, portanto, o Regente do Capítulo de Cirurgia Cranio-Maxilo-Facial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica seria o gaúcho Silvio Antonio Zanini.

 

A Gestão Zanini 

O ano de 1980 foi de muita atividade para o Capítulo e registrou vários assuntos polêmicos.

Dr. Raul Couto Sucena era o Secretário Geral do Comitê IberolatinoAmericano de Prevención y Asistencia de Las Quemaduras e sugeriu ao Dr. Vladimir Távora Fontoura Cruz, futuro Presidente da Comissão Executiva do XVII Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica (Fortaleza-CE, 23 a 28 de novembro de 1980), a realização de uma “sessão paralela” sobre Cirurgia Buço-Maxilo-Facial, da qual participariam médicos e dentistas.

Dr. Vladimir consultou Dr. Zanini por carta e este, respondeu em missiva datada de 15 de julho de 1980:

“…consultada a maioria dos colegas pertencentes ao Capítulo de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial da SBCP:…

O Capítulo de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial existe oficialmente dentro da SBCP e como tal todas as suas atividades devem ser incluídas na programação oficial e nunca em paralelo

A política atual do Capítulo de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial é de prestigiar o colega cirurgião plástico que exerce a especialidade a ao mesmo tempo de estender a Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial a todos os colegas interessados, tornando-a cada vez mais parte integrante da Cirurgia Plástica”

A partir desta firme posição da Regência do Capítulo, confirmava-se uma filosofia de atuação política nesta área da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Ainda neste mesmo ano Dr. Zanini entrou em contato com o Dr. Paulo de Castro Correa, do Hospital dos Defeitos da Face onde trabalhavam os Drs. Walmor Feijó e José Marcos Melega, e escreveu: “…venho propor-lhe, Diretor que é de um grupo da mais alta qualificação científica e experiência na área de traumatismos da face, a realização de um Curso destinado aos cirurgiões plásticos, o qual gostaríamos fosse ministrado em seu Hospital, sob a sua Direção, e Coordenação do Capítulo de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial da SBCP” . Este foi um dos muitos exemplos que o Dr. Zanini deu na busca incansável da divulgação da especialidade no meio médico durante toda a sua gestão.

Ainda neste biênio (80/81) aconteceu o encontro com o médico Jair Soares, então Ministro da Previdência e Assistência Social, no dia 02 de junho de 1980 em Brasília. Participaram deste encontro os Drs. Silvio Zanini, Jorge Psillakis, Edgard Costa, José Carlos Daher e o advogado da SBCP, Dr. Paulo Sergio Freitas Ferreira. O objetivo da Reunião era a defesa dos honorários médicos regidos pela tabela do INAMPS, com a inclusão de procedimentos cirúrgicos até então inexistentes na área de Cirurgia Craniomaxilofacial e atribuídos de maneira inadequada exclusivamente aos odontólogos.

O 3º Encontro Brasileiro em Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial aconteceu também no ano de 1980, e foi organizado pelo Sócio Fundador do Capítulo, Dr. Melchiades Cardoso de Oliveira, cirurgião extremamente atuante na área de fraturas de face no interior do estado de São Paulo (São José do Rio Preto), e um dos pioneiros da especialidade em nosso país.

Ainda nesta gestão, com a colaboração do Dr. Psillakis, nos anos de 1980 e 1981 iniciou-se um criterioso estudo das questões legais que envolviam médicos e dentistas no exercício da especialidade. Neste particular foi muito importante a colaboração do Dr. José Costa Lima, conselheiro do Conselho Regional de Medicina no estado de Alagoas. Esta discussão, passados mais de vinte anos, perdura até hoje com nuances políticas de complexa legalização.

O Regente do Capítulo nos anos de 1982 e 1983 foi o Dr. Edgard Costa que deu continuidade ao trabalho iniciado por seus antecessores durante a Presidência do Dr. Melchiades Cardoso de Oliveira na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Nova Diretoria do Capítulo seria eleita posteriormente apenas para o biênio 1988/1989, quando o regente foi o Dr. Cássio Menezes Raposo do Amaral.

 

Os Primeiros Regentes do Capítulo

1978/1979 – Dr. Jorge Miguel Psillakis (SP) e Dr. José Marcos Melega (SP)

1980/1981 – Dr. Silvio Antonio Zanini (RS)

1982/1983 – Dr. Edgard Alves Costa (RJ)

1984/1985 – Dr. Waldemar Mano Sanches (S.J. Rio Preto-SP)

1988/1989 – Dr. Cássio Menezes Raposo do Amaral (Campinas-SP)

Dr. Paulo Mateó e Dra. Vera Cardim haviam sido ex-residentes do Dr. Jorge Psillakis; Dr. Paulo Hvenegaard havia sido ex-residente do Dr. José Marcos Melega e Dr. Luiz Fontoura havia sido ex-residente do Dr. Edgard Costa. Este foi o exemplo claro de que estava garantida a evolução da especialidade em nosso meio através das gerações de cirurgiões que se formavam.

Nos anos de 1986 e 1987, quando o Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica foi o Dr. Juarez Moraes de Avelar em sua primeira gestão, houve uma solução de continuidade na Regência do Capítulo, já que o indicado foi novamente o Dr. Edgard Costa que preferiu declinar da indicação por já ter ocupado o referido posto. 

A atuação do Capítulo de Cirurgia Craniomaxilofacial dentro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica possibilitou que vários jovens médicos, interessados nesta especialidade (Cirurgia Plástica) pudessem descobrir o fascínio desta área tão apaixonante e difícil da Cirurgia Reconstrutiva.

Na realidade os pioneiros da especialidade (Psillakis, Zanini, Edgard Costa, Osvaldo de Castro, Melega e Melchiades) conversaram de forma quase solitária por pouco tempo 73/74 até 77. Já no ano de 1978 o Capítulo teve visibilidade dentro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, contou com os nomes já citados que foram incluídos como Membros Ativos (dentre os quais incluíam-se Cássio Raposo do Amaral e Gilvani Azor de Oliveira Cruz), e a partir daí surgiram jovens como Aulus Albano (SP), Diógenes Laércio da Rocha (SP), Fausto Viterbo (SP), José Carlos Ferreira (SP), Luiz Carlos Manganello de Souza (SP), Luiz Francisco da Fontoura (RJ), Mariângela Santiago (SP), Nivaldo Alonso (SP), Paulo Hvenegaard (SP), Paulo Roberto de Mello Gomes (SP), Paulo Mateó Santana (SP), Ricardo Lopes da Cruz (RJ), Robinson Grego Gonçalves (ES), Sérgio Moreira da Costa (MG), Sinézio de Souza Filho (RJ), Vera Lucia Nocchi Cardim (SP) e Vespaziano Lopes de Farias (ES).

O Capítulo de Cirurgia Cranio-Maxilo-Facial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica foi fundada em meados de 1978, e a International Society of Craniofacial Surgery foi fundada em meados de 1983, apenas cinco anos mais tarde. O V Congresso da International Society aconteceu dez anos depois, em 1993, na cidade de Oaxaca (México), e foi presidido pelo Dr. Fernando Ortiz-Monasterio. Vários membros do Capítulo de Cirurgia Craniomaxilofacial da SBCP foram a este Congresso e amadureceram a idéia de fundar uma Sociedade Brasileira de Cirurgia Craniomaxilofacial, o que efetivamente ocorreu no ano de 1994, propiciando com isto uma maior integração entre os vários especialistas que atuam nesta área.

Nos últimos 20 anos a Cirurgia Craniomaxlofacial desenvolveu-se de forma espetacular no Brasil e alcançou destaque mundial graças a estes talentosos pioneiros.