Prevalência da Síndrome Dismórfica Corporal no ambulatório de Cirurgia Plástica do Hospital de Clínicas da UFPR em pacientes submetidos previamente a cirurgia bariátrica

Introdução A Síndrome Dismórfica Corporal (SDC) é uma doença que se caracteriza por uma preocupação […]

Introdução

A Síndrome Dismórfica Corporal (SDC) é uma doença que se caracteriza por uma preocupação com um defeito na aparência mínimo ou inexistente e que causa significativo desconforto e/ou interfere na vida social e profissional do paciente. Geralmente são pacientes viciados em múltiplos procedimentos cirúrgicos. É uma doença psiquiátrica frequentemente encontrada na prática do cirurgião plástico, no entanto muitas vezes não diagnosticada. Os questionários para screening de SDC são simples e de fácil aplicação, porém pouco utilizados na prática diária.

Método

Foram avaliados 40 pacientes atendidos no ambulatório de Cirurgia Plástica do HC – UFPR com desejo de cirurgia plástica, sendo 20 pacientes com história prévia de perda de peso maciça pós gastroplastia e 20 pacientes canditados a cirurgia plástica cosmética sem história de cirurgia bariátrica. Foram coletados dados através de analise de prontuários tais como: sexo, idade, comorbidades, presença ou não de doença psiquiátrica previamente diagnosticada, histórico cirúrgico prévio (gastroplastia ou outra cirurgia para fins estéticos). Todos os pacientes responderam 2 questionários: um para coleta de dados demográficos e outro para screening de SDC (Body Dysmorphic Questionaire traduzido), ambos avaliados e aprovados pelo Comitê de Ética e Pesquisa de nossa instituicão. Os pacientes também assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido proposto. Após análise dos resultados, os pacientes com fatores positivos para SDC foram encaminhados ao ambulatório de psiquiatria do HC-UFPR para maiores avaliações e acompanhamento.

Resultados

A média de idade do grupo controle foi de 41,6 anos e do grupo de ex-obesos 43,5 anos.

Dos 40 pacientes avaliados 13 pacientes apresentaram dados positivos para SDC ao responder os questionários. Destes, apenas 3 foram diagnosticados, após avaliação com psiquiatra, com SDC e encaminhados para tratamento adequado. Outros 3 pacientes fecharam critérios para transtorno depressivo e 1 para anedonia.

Os 3 pacientes com SDC pertenciam ao grupo controle, sem histórico de gastroplastia prévia, com uma média de idade de 21 anos e todos solteiros. Não foi diagnosticado nenhum caso de SDC entre os ex-obesos.

Discussão  

Os critérios diagnósticos listados no Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais (DSM), 4a Edição, são os seguintes: (1) o indivíduo preocupa-se com um defeito imaginário na aparência e se uma mínima anomalia está presente, tem preocupação marcadamente excessiva com esta; (2) a preocupação principal deve causar estresse significativo ou prejuízo na vida social, ocupacional ou outras áreas de funcionamento; (3) essas queixas não podem ser caracterizadas como outro transtorno mental, tais como a anorexia nervosa.     A doença afeta significativamente a vida das pacientes, sendo que a maioria apresenta problemas sociais significativos, tais como: dificuldade em manter um relacionamento estável (mais de 70% dos pacientes nunca se casou), isolamento social e problemas no ambiente de trabalho causados por evitar interações sociais devido ao “defeito”. Até 50 % dos pacientes com diagnóstico de SDC apresentam ideação suicida ao longo da vida. O controle da doença está diretamente relacionado ao tratamento psicoterápico e não a procedimentos cirúrgicos.      A aplicação dos critérios diagnósticos da SDC na população de pacientes que procura um cirurgião plástico constitui um desafio. Existem poucos estudos publicados investigando a prevalência de transtorno dismórfico corporal na população. Estima-se que 1 a 3 % da população em geral apresenta o diagnóstico de síndrome dismórfica corporal. Analisando-se somente os pacientes que procuram atendimento por um cirurgião plástico esse índice pode chegar de 7 a 15%. Não está claro na literatura se há prevalência maior em mulheres ou homens. Estima-se que a prevalência da SDC seja maior em pacientes com alguma desordem psiquiátrica já diagnosticada. Com relação aos ex-obesos, pouco se sabe sobre os aspectos psicológicos destes pacientes. Quando não diagnosticados no pré-operatório, esses pacientes podem causar grandes perturbações financeiras e pessoais, mesmo quando realizadas cirurgias bem estabelecidas e de maneira correta. Embora não exista nenhum estudo prospectivo de pós-operatório de pacientes com esta doença, a recomendação pela literatura existente é de que não se deve operar pacientes com esta síndrome.

Conclusão

Diante dos dados coletados, não confirmamos a nossa hipótese de que haveria uma maior incidência de SDC em pacientes que apresentaram uma perda ponderal maciça. No entanto, o estudo mostrou que 17,5% da população analisada apresentou algum tipo de patologia psiquiátrica. Fica clara a necessidade de um screening adequado dos pacientes candidatos a cirurgia plástica estética, uma vez que a cirurgia para esses pacientes pode desencadear maiores problemas psiquiátricos e médico-legais.

Referências

  1. KYLE, A. Body dysmorphia and plastic surgery. Plast Surg Nurs, v. 32, n. 3, p. 96-8; Quiz 99-100, Jul-Aug 2012.
  2. Sarwer, DB,Spitzer, JC. Body Image Dysmorfic Disorder in Persons who Undergo Aesthetic Medical Treatments. Aesthetic Surgery Journal . 2012; 32 (8) 999-1009.
  3. Phillips  KA.  The  Broken  Mirror:  Understanding  and Treating  Body  Dysmorphic  Disorder.  New  York,  NY: Oxford University Press; 2005.
  4. HODGKINSON, D. J. Identifying the body-dysmorphic patient in aesthetic surgery. Aesthetic Plast Surg, v. 29, n. 6, p. 503-9, Nov-Dez 2005.
  5. SARWER, D. B.; CRERAND, C. E.; DIDIE, E. R. Body dysmorphic disorder in cosmetic surgery patients. Facial Plast Surg, v. 19, n. 1, p. 7-18, Fev 2003.